Sopro de luz sobre as cinzas do passado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de junho de 2017
José Pedro da Rocha Neto 
Para mim, o Ouro Verde é a própria Fênix. Traz-nos de volta as imensas recordações de uma época gloriosa, dos tempos ginasiais dos anos de 1950, quando saíamos da infância e ingressávamos na puberdade. Época dos sonhos, dos primeiros namoros, das primeiras reuniões dançantes nas casas das nossas companheiras ginasiais quando toda a "patota" se fazia presente.
Nesses locais, aprendíamos os primeiros passos de dança. Emocionávamos diante das primeiras aproximações com as nossas companheiras ao som das músicas da época que normalmente saíam daquelas vitrolas familiares. O bolero ainda estava na moda, a rumba, o samba e, principalmente, as músicas das "big bands" americanas que sempre constavam daquelas festas dançantes. Sonhávamos e dançávamos. Os filmes da época - "Em cada coração um pecado", "Suplício de uma saudade", "A última vez que vi Paris", "E o vento levou", (embora já bastante antigo naquela época), "A princesa e o plebeu", "Sonata ao luar", "Napoleão e Josefina", "Guerra e Paz" e tantos outros - ainda perduram em nossas memórias.
Ainda no final da quarta série ginasial (no antigo Colégio Estadual de Londrina, hoje Marcelino Champagnat), assim que aprendíamos a dançar, íamos ao Ouro Verde. Primeiramente, na sessão das 14 horas, aos domingos e, em seguida, às tardes dançantes da União Londrinense dos Estudantes que aconteciam no prédio do antigo Grêmio Literário e Recreativo de Londrina. Poucos anos depois, na sessão das 20 horas a fim de que pudéssemos comparecer, por volta das 22 horas, ao chá dançante da Casa de Chá Fuganti ou aos jantares dançantes promovidos pelo Londrina Country Clube. Neste caso, sempre acompanhados pelo Nelson Sahyun que ajudava a ingressar naquele ambiente uma vez que não éramos sócios.
O Cine Ouro Verde, inaugurado em 1952, sempre foi o destaque de Londrina. Conhecido por sua fama até em outras cidades brasileiras. Era considerado o mais luxuoso da América do Sul naquela época. Tornou-se um ícone de Londrina e isso era também um dos componentes do orgulho londrinense.
O cinema era um excelente vetor cultural no mundo inteiro. Os filmes disseminavam um mesmo entendimento no mundo inteiro. Fosse nos Estados Unidos, América do Sul, Europa, Ásia e África. Por meio dele tomávamos conhecimento dos usos e costumes, também da cultura, nos países onde eram produzidos. Os Estados Unidos, no entanto, eram campeões nisso. Por essa razão, ainda hoje, a nossa alma está impregnada dessas afirmações e sentimentos que nos permitem afirmar "somos todos americanos". Porém, com o passar dos anos, os cinemas (como construções) tornaram-se obsoletos. Menos na nossa alma. O próprio Ouro Verde viu-se, paulatinamente, menos frequentado. No entanto, quando isso aconteceu, começaram a prevalecer os festivais de Teatro e Música que destacaram a cidade. Por sua vez, o projeto arquitetônico, concebido pelo arquiteto Villanova Artigas, nunca se viu diminuído.
Em 2012, ocorreu o sinistro que incendiou o Ouro Verde. A cidade chorou pois perdia um dos seus ícones e não concordava com isso. Mobilizou-se para a sua reconstrução e o devido restauro para deixá-lo o mais próximo possível do que fora construído e inaugurado em 1952. Da emoção e dos prantos desesperados daquela multidão que presenciou o incêndio, renasce hoje a Fênix londrinense: o Cine-Teatro Universitário Ouro Verde.
Parabéns à comunidade londrinense que recebe de novo o seu velho ícone.
JOSÉ PEDRO DA ROCHA NETO é engenheiro em Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres.
Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


