Sonoplastia de botequim - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de dezembro de 1997
Fernando José Dias da Silva 
Embaixo do Estadão fica um boteco que como vários outros poderia ser chamado de cuspido - apelido carinhoso dado a esse tipo de estabelecimento simples, que serve coisas singelas mas sempre com uma certa honestidade de propósitos, que é tratar bem a sua seleta freguesia composta de motoristas, grandes repórteres e repórteres grandes e até diretores de redação.
Pois bem, no Pilão existe uma máquina daquelas que tocam música e ao lado de Amado Batista, Dicró, É o Tchan e outras jóias raras da nossa MPB toca, não se sabe como, o Presidente Bossa Nova, do Juca Chaves, sambinha sem pretensões feito para homenagear Juscelino Kubitschek nos tempos de antanho.
O mais engraçado é que no dia da entrevista coletiva de Fernando Henrique a música mais tocada no cuspido embaixo do Estadão era o Presidente Bossa Nova. E claro, não era mera coincidência porque a letra de Juca Chaves fala que para ser um presidente bossa nova basta ser tão simplesmente simpático, risonho, original. Decididamente nós temos agora um presidente bossa nova que almoça com tenista campeão, conhece um bom artista exclusivista e se sente bem em desfrutar das maravilhas de ser o presidente do Brasil.
Todo mundo nota que FHC adora o cargo que ocupa. Esbanja sabedoria. Cita até Kant para a massa iganara dos jornalistas que faziam perguntas ineptas. Fernando Henrique sabe tudo. Sua análise da crise financeira é perfeita. As observações sobre os gastos do governo são definitivas: Não adianta gastar muito, é preciso gastar bem.
Fernando Henrique continua sendo ele mesmo. Esnoba a oposição, insiste em dizer que no seu governo as práticas políticas mudaram (apesar de todas as provas em contrário) e que as reformas são a saída para a crise financeira. Depois de uma certa malaise (termo francês que ele gosta de usar para definir mal estar) voltou a se sentir confortável no trono.
E assim tudo está voltando ao que era. Paulo Maluf faz frufru, segundo José Serra. Depois de um pito do PFL refluiu. Depois de um surto de independência afirma com toda a veemência malufista que apóia Fernando Henrique desde criancinha. É como Ciro Gomes, que depois de se filiar ao PPS virou ex-comunista desde criancinha. Maluf diz que o seu negócio é o governo de São Paulo e não a presidência. Já dá palpites na campanha do seu novo ídolo. Toma café da manhã no Alvorada para grande alegria do governador Mário Covas.
Enquanto isso Antônio Carlos Magalhães continua comandando a massa. Mostrando que a Bahia é que dá régua e compasso para esse governo. O dono da Bahia junto com o delfim Luís Eduardo são os donos da orquestra que toca o minueto dançando pelo imperador do Brasil.
Não foi assinado nenhum armistício, mas estabeleceu-se um trégua na política. Ninguém muda suas posições, mas foi dado um tempo para que todos possam dar uma respirada. Inclusive as oposições na sua busca incessante por um candidato único que consiga reagrupá-los para fazer frente a Fernando Henrique.
Luís Inácio Lula da Silva terá mais tempo para refletir sobre o seu dilema de ser ou não ser candidato. E Ciro Gomes também ganha mais espaço para tentar viabilizar o seu nome que anda capengando na corrida pelo Grande Prêmio, a presidência.
Depois de alguma agitação tudo volta ao normal. Até a próxima crise obviamente. Seja ela econômica, financeira ou política.


