A confirmação de que os sonhos ocupam um lugar físico no cérebro foi apresentada no fim do ano passado num estudo do Hospital Universitário de Zurique, na Suíça. De acordo com o neurologista Claudio Bassetti, os sonhos se desenrolariam no córtex occipital, na parte de trás do cérebro. Ele chegou a essa conclusão depois que uma paciente de 73 anos perdeu a capacidade de sonhar por cerca de três meses ao sofrer um acidente de carro.
De acordo com o relato do caso, publicado na revista médica ''Newscientist'', imediatamente depois da batida, sem saber se estava dormindo ou acordada, a idosa teve um tipo de alucinação muito intensa. Nas semanas seguintes, porém, não sonhou mais. Com ajuda de ressonância magnética, o médico conseguiu localizar o dano cerebral, que abriu novas perspectivas sobre o funcionamento dos sonhos. Como cientistas já comprovaram que as regiões frontais, relacionadas à criatividade e à emoção, têm relação direta com o teor do sonho, a descoberta levantou a hipótese de que a região de trás esteja associada à representação visual das cenas.
Apesar da falta de sonhos, a senhora não apresentava problemas cognitivos ou de memória, o que para o médico tiraria dos sonhos as funções que lhe são atribuídas. Na pesquisa, Bassetti escreveu ainda que é possível que o sono REM e os sonhos não estejam tão ligados como se imagina. Mesmo sem sonhar, a paciente continuava entrando na segunda fase do sono normalmente.
Essa também é a constatação do pesquisador Peretz Lavie, do Laboratório do Sono do Instituto de Tecnologia de Israel. Ele acompanhou por 36 anos o desenvolvimento neurológico de um homem que aos 19 teve o cérebro perfurado por estilhaços de uma bala. Desde então, ele nunca mais teve um sonho nem sequer chegou a entrar no sonho REM. Mesmo assim, o médico Lavie classifica o advogado e pintor como uma pessoa bem-sucedida profissional e pessoalmente. Lavie, aliás, defende que não se lembrar dos sonhos pode trazer benefícios.
Num grande estudo com sobreviventes do Holocausto, realizado na década de 90, ele concluiu que as pessoas que não costumavam se lembrar dos sonhos da noite anterior conseguiram retomar suas vidas de maneira mais tranquila. Apenas 34% dos sobreviventes bem ambientados conseguiam recuperar os sonhos, enquanto mais da metade dos que apresentavam problemas de ressocialização relatava os sonhos.(Agência Globo)

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