Acuadas pelo desemprego e embaladas pelo sonho de melhorar de vida através de um pequeno pedaço de terra ou ao menos receber cestas básicas regularmente, famílias do Norte do Estado tomaram conta da PR-340, entre Centenário do Sul (91 km ao norte de Londrina) e Santo Inácio (11km ao norte de Maringá). Ao longo de 70 quilômetros, foram montadas centenas de barracas de lona dispostas em três grandes acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Movimento dos Agricultores Sem Terra (MAST). Segundo cálculos da coordenação, os acampamentos abrigam pelo menos 900 famílias da região.
As ocupações começaram no primeiro semestre e cresceram nos últimos três meses, possivelmente como um reflexo dos mega-acampamentos montados na região do Pontal do Paranapanema, região sudoeste de São Paulo e distante cerca de 50 quilômetros de Santo Inácio. Assim como lá, os acampamentos daqui também estão atraindo um sem-número de trabalhadores urbanos que passam a maior parte do tempo em suas próprias casas na cidade.
Nas quase 150 barracas do Acampamento 1º de Março, montado na entrada de Santo Inácio e formado majoritariamente por habitantes daquela cidade e da vizinha Lupionópolis, poucas pessoas são vistas por lá durante a tarde. Quem fica no local são os idosos, mulheres e adolescentes que guardam as barracas enquanto os homens trabalham. Não mais de 15 famílias que realmente residem no local. ''O resto tá trabalhando, afinal a gente precisa comer, mas a noite é que dá movimento'', conta Sebastião Pereira, 60 anos.
Ex-trabalhador rural, essa é a terceira tentativa dele em ganhar um pedaço de terra para tocar com o filho, um jardineiro desempregado. Na última, ele chegou a ficar dois anos acampado mas foi despejado. ''Vamos ver se agora dá'', aposta.
Ao contrário de Pereira, a maioria dos acampados que falaram à reportagem é marinheiro de primeira viagem. Caso de seu José Amaro da Silva, 60 anos. Trabalhador rural na juventude, ex-vendedor de pipoca e operador de som, ele divide com três amigos uma barraca de lona no acampamento do MAST perto de Centenário do Sul. Segundo a coordenação, cerca de 500 famílias estão abrigadas ali.
Pouco versado nos trâmites da reforma agrária e dos movimentos sociais, seu José mostra o comprovante de cadastramento do Incra com alegria e diz que está tentanto porque não tem nada a perder. ''Assim como Deus prometeu terra para Isaac e Abraão acho que essa promessa não acabou'', acredita.
Se a promessa de Deus não acabou, a do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) é bem mais rigorosa e deve desqualificar uma parte representativa, se não a maioria, dos acampados. ''O Incra não vai assentar quem trabalha e quem não tem vínculo com a terra, vamos implantar uma triagem mais rigorosa com resgate do histórico do interessado'', diz o superintendente do Incra no Paraná, Celso Lisboa de Lacerda.
O último levantamento do Incra, realizado em abril, apontou 12,5 mil famílias acampadas em todo o Estado. Um novo cadastramento deve terminar em agosto e, adianta Lacerda, deve mostrar um ligeiro aumento.

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