O autor da frase foi Ziraldo ou Jaguar, mas um deles escreveu que, se um E.T. viesse ao Brasil e pousasse sua nave espacial num cemitério, ao ler as inscrições nas lápides tumulares certamente questionaria ''... mas afinal, onde estão enterrados os canalhas deste país?''.
Na verdade somos todos passionais: transitamos do amor ao ódio por quase nada. Há 60 dias o técnico da seleção brasileira Luiz Felipe Scolari era execrado de Norte a Sul, tanto pela elite como pela tigrada verde-amarela, por não chamar Romário à seleção brasileira. Até o presidente da República era favorável à convocação do baixinho. E olha que FHC é sociólogo e sociólogo entende de povo como ninguém! A ressaca do penta transformou Ronaldinho, o Fenômeno, em herói nacional e Felipão em símbolo da perseverança. Sua teimosia virou persistência de propósitos e os iluminados da imprensa global foram obrigados a reconhecer que não acreditavam no time brasileiro, apenas repetiam os jargões ufanistas, típicos da pátria de chuteira, para manter elevado o moral da tropa. De Romário, ninguém mais lembrou.
Sem dúvida que a festa foi maravilhosa. Durante um mês o país respirou só futebol. Com o título já conquistado, uma multidão saiu às ruas fantasiadas de brasileiro, sacudindo bandeiras e extravasando alegria. O salário miserável, o aluguel atrasado, o ônibus lotado, a violência, a corrupção, as eleições, nada disso era mais importante que o campeonato mundial. Aliás, ninguém percebeu que no dia da decisão houve um aumento nos preços dos combustíveis. Certamente a notícia estava limitada a um canto de página como nota de menor importância. Mas era possível sentir em cada olhar, em cada gesto, em cada sorriso ou nas lágrimas de emoção, o desabafo de quem arrancava do fundo da alma a explosão dos vencedores. O Brasil exala otimismo, alegria e fé, e, desde os domingos vitoriosos de Ayrton Senna, não experimentava o doce sabor de ser o centro do universo.
No retorno dos jogadores, mais festa. Brasília, a ilha da fantasia, foi assaltada, no bom sentido, é claro, por mais de 300 mil pessoas vindo de todos os cantos da cidade: da aristocracia dos lagos aos favelados; do Plano Piloto às cidades satélites. Por um momento a miséria tomou conta da Esplanada e naquela mistura de raças, cores, credos, o que se ouvia era um coro uníssono maquiando a dor e fingindo que éramos uma Nação de felizes, afinal, somos pentacampeões. Foi uma daquelas vezes que o povão invadiu os jardins do Palácio sem levar chibatada no lombo. Depois, o trem da alegria voou ladeira abaixo: Rio, São Paulo, Minas, Paraná até o Rio Grande do Sul, terra de Felipão e Ronaldinho Gaúcho.
O lamentável é que a exultação coletiva, esta que invade a alma de todos os brasileiros, sem discriminação de classe, só acontece de tempos em tempos. Neste caso, a última foi em 1994 quando ganhamos o tetra, nos Estados Unidos. Por coincidência, naquele ano o presidente Fernando Henrique Cardoso assumia seu primeiro mandato. Agora, quando ele sai, voltamos a sorrir.
Triste sina desta gente que só pode ser feliz em ocasiões tão efêmeras. Se alguém entendesse que o povo quer coisas simples, como educação, saúde, trabalho, segurança e dignidade, o futebol deixaria de ser um reduto de cartolas ávidos por poder e fortuna para tornar-se a verdadeira alegria do povo. Aqui, diferentemente de qualquer lugar do mundo, viver em morros e morar em favelas podem ser sinônimos de alegria, afinal, o carnaval nasceu, cresceu e acontece por lá. Passional, o brasileiro é capaz de transformar a dor em riso; fazer da ruína um pretexto para a vitória ou buscar no improviso a superação da força. O lamentável é que os verdadeiros canalhas deste país não estão nem nos cemitérios e muito menos nas ruas, como trabalhadores ou desempregados, mas encastelados em salas arquitetando os próximos golpes. Enquanto isso o povão se esbalda em alegria, afinal, somos pentacampeões.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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