Somos aquilo que somos...
Engana-se com mais facilidade aquele que não conhece a história, justamente porque o desconhecimento encaminha o erro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de agosto de 2025
Engana-se com mais facilidade aquele que não conhece a história, justamente porque o desconhecimento encaminha o erro
João Gomes Filho 
Parte significativa da elite econômica do país, bem assim as cismas neopentecostais que se lhes dão sustento, aprofunda-se na bolha de estupidez política causada pela necessidade de confundir a realidade, produzindo uma desordem permanente, que alimenta o modelo de atuação da extrema direita desde que Goebbels vendeu a morte como solução final.
Engana-se com mais facilidade aquele que não conhece a história, justamente porque o desconhecimento encaminha o erro. A ignorância é prato cheio para fomentar a captura de corações e mentes. Este é o modelo neoliberal em estado bruto e é essa a sua força motriz.
A Alemanha dos nazistas proliferou graças ao binômio medo e ignorância. Este mesmo modelo, em Idade Média, alavancou as platitudes estruturantes do estado feudal, projetando uma igreja punitivista de desejo e sede de conhecimento, ao tempo em que incensava o modelo explorativo da vassalagem. Humberto Eco historia (com maestria) este desenho em seu imprescindível ‘O Nome da Rosa’.
O que passa no Brasil de agora vai além da distopia reinante dos últimos anos e abraça a desilusão histórica, projetando a estupidez feita herança dos que se perdem na própria ignorância e, a partir desta somatória de pequenas irracionalidades, projeta a insânia que faz cidadãos aplaudirem o movimento político intervencionista pilgrin.
Manja aquela fala de efeito, consistente em ‘acender uma vela à Deus e outra ao diabo’? Então, por aqui estão a incensar o próprio anjo caído como se fosse essa a vontade divina.
É o que se percebe no aplauso ao movimento intervencionista estadunidense, onde o que se aplaude é o próprio prejuízo sócio econômico que se anuncia na trama da taxação a nossos produtos exportados para norte américa (medida diabólica), então justificada no que o presidente pilgrin apontou em ‘perseguição política do messias’ (saída política que afaga apenas aos ignorantes).
O mandatário da Casa Branca falar uma bobagem desta natureza vá lá – afinal falar bobagens é de sua natureza vã e vil; mas os daqui aplaudirem tal medida (que nos impõe dificuldade político-econômica) porque, a seus olhos, o desforço econômico beneficia o messias, isso é das coisas imbecis a mais imbecilizante que presenciei nos últimos anos.
Pensava, até então, que a plataforma de extrema direita de desacreditar a ciência seria a campeã das aleivosias gestadas na ignorância de uma elite tosca. Qual o que; o aplauso à chantagem econômica imposta pelos pilgrins vence a ignorância terraplanista.
Seja naquilo que esta demandava, como o próprio conceito revela, certa dose (enorme) de ignorância, enquanto o aplauso ao imposto de 50% é perceptível a olho nu; seja na conta da constatação alfa numérica que repristina diretamente na conta bancária de nossa cadeia produtiva – o que reacende o meu medo de que a ignorância alimenta a estupidez para além das amarras neoliberais, onde o lucro é o deus dos que vendem prosperidade e vivem de dízimo de sangue...
Desenhando para uma gente com enorme dificuldade cognitiva: o bolso fala e se revela nas entrelinhas, desafiando o próprio prisma econômico, desaguando nas dificuldades que impedem a reconstrução de nosso tecido social injusto e estamental, significando atraso no crescimento do país e malogro de todo arcabouço que recepciona o estado de bem-estar social então possível.
Não há forma mais evidente de desenhar a maldade dos que aplaudem a chantagem estadunidense, levantando bandeira de tio san e de Israel, contra o Supremo e repetindo a bobagem divorciada de qualquer respaldo científico, da perseguição de seu mito de pés de barro.
Fernando Pessoa, muito provavelmente em seu imortal ‘Ficções do Interlúdio’, já dizia que ‘o mito é o tudo que é nada’, naquilo que compreende a interseção dos espaços de realidade na fantasia da distopia, onde se tocam realidade e entressonho, consentindo na metáfora de desaceleração da crueza de existir na fantasia de bem viver.
Por aqui, hoje e agora, a ficção não só se distancia da realidade como a desacredita, pelo só fato de que a descrença é mais fácil de consumir que a crença, naquilo que esta demanda conhecimento e, conhecer, hoje e sob domínio das redes sociais, não é senão incomodar, enquanto o influenciador, para influenciar, demanda ignorar para desacreditar.
Estamos prisioneiros em nosso tempo de não existir, justamente porque entregamos nossa memória, optando por não resistir aos descaminhos da exploração neoliberal em desencanto, construída sobre a mentira do ‘mundo melhor’ que o civismo militar vende, sob a solidão de um totalitarismo salvador, onde se crucificam as individualidades libertas à cada sábado – tudo escorado na ignorância anunciada desde os púlpitos neopentecostais aos discursos de ódio.
Assim e neste esquálido compasso, emerge o monstro da lagoa para devorar nossa necessidade de bem viver, aprisionando meninos em azul, meninas em rosa, sob a falsa promessa de que seremos livres – não há liberdade senão no conhecimento.
Tristes trópicos.
Saudade Pai.
João Gomes Filho, advogado
Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.
COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]


