Somente a inteligência pode combater as fraudes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de fevereiro de 2004
Eduardo Kfouri 
A evolução das fraudes acompanha a história do ser humano, uma deturpação do instinto de sobrevivência. Quando a ganância supera a ética, o homem passa a buscar meios para obter mais do que precisa em detrimento à situação do próximo, por meio de atalhos e práticas ''não recomendáveis''.
A consolidação do sistema financeiro e a consequente posição que a moeda assumiu nas relações comerciais fizeram com que as fraudes passassem a ter um alvo: o dinheiro. E aí começava a guerra (que, diga-se de passagem, parece interminável) entre fraudadores, sedentos por uma oportunidade de driblar a lei, e especialistas pagos para evitar que essa oportunidade apareça.
O tempo se encarregou de aumentar o volume de moeda circulante na sociedade e, como resultado, surgiram instituições financeiras com porte suficiente para manipular esses recursos. Essas instituições foram eleitas alvos favoritos dos fraudadores, que atuavam diretamente (sistemas) ou indiretamente (clientes).
Segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), as perdas com fraudes contabilizaram, apenas em 2002, mais de R$ 150 milhões. Apesar do resultado representar queda de 42% em relação ao ano anterior, o número ainda é significativo e mostra que existe muito a ser feito na área de gerenciamento e segurança das transações financeiras.
E o problema tende a piorar com a evolução da complexidade entre as relações financeiras, com o surgimento de novas tecnologias, canais e serviços. Hoje, por exemplo, as pessoas utilizam seus cartões para compras via Internet ou para liberar para a conta-corrente um crédito pré-aprovado, tornando ainda mais complicado o trabalho de prevenção a fraudes.
Uma das saídas para contornar essa situação é o emprego de redes neurais nas soluções para detecção de fraudes. As redes neurais são reconhecidas como o passo anterior à Inteligência Artificial, modelos que aproximam o funcionamento dos computadores com o cérebro, considerado o mais eficiente processador existente.
A maioria dos modelos de redes neurais possui uma regra de treinamento, na qual os parâmetros são estabelecidos de acordo com os padrões de comportamento apresentados. Em outras palavras, elas aprendem por meio de exemplos. A rede neural passa por um processo de treinamento a partir dos casos reais conhecidos, adquirindo, a partir daí, a sistemática necessária para executar adequadamente o processo desejado com os dados obtidos. Sendo assim, a rede neural é capaz de extrair regras básicas a partir de situações reais.
Aplicadas na detecção de fraudes e lavagens de dinheiro, as redes neurais - embutidas em soluções tecnológicas - avaliam todas as transações financeiras efetuadas pelos clientes de determinada instituição. Quando uma transação destoa muito do comportamento padrão apresentado por um cliente, por exemplo, a ferramenta emite um alerta para que auditores possam analisar com mais detalhes a ocorrência.
A velocidade com que surgem novos golpes torna imprescindível a utilização de redes neurais. Apenas a inteligência pode combater a inteligência. E as instituições financeiras precisam começar a atentar aos benefícios que o emprego delas pode trazer. Somente com essas ferramentas as instituições podem proteger seus bens mais preciosos - seus clientes e sua marca.
EDUARDO KFOURI é especialista no gerenciamento, processamento e segurança de transações eletrônicas financeiras
* Os artigos para o Espaço Aberto devem ter, no máximo, 35 linhas e podem ser encaminhados pelo e-mail [email protected]. Textos acima dessa medida não poderão ser divulgados. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal.


