Soluções tecnológicas
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de setembro de 2002
Abraham Shapiro 
Parece incrível, mas estamos quase sem nenhum tempo para curtir aquilo que só pode ser sentido sem pressa, sem stress. Fascinados com os ''brinquedos'' que a alta tecnologia tem colocado em nossas mãos - soluções a problemas que sequer sabíamos existir ou que ainda nem mesmo existem - talvez até já tenhamos esquecido a dura e penosa realidade que atinge a maior parte de nossa população.
Para quem, de fato, destina-se essa enxurrada de novidades de todos os dias? Quais problemas estão, realmente sendo resolvidos? Se pararmos para refletir ficaremos assustados com o fato de que fomos armadilhados num modelo mental que está programado para fazer-nos ver apenas a parte de um imenso quadro e esquecermos o todo. Como resultado, estamos cada dia mais insensíveis e cegos, porém, equipados com alta tecnologia da cabeça aos pés, do chuveiro ao travesseiro.
Mentir é cada vez mais normal. Normal também é vermos velhos e crianças buscando algum alimento em sacos de lixo, na calada da noite, para não morrerem de fome. Normal é manipular pessoas, dar propina em troca de vantagens, usar meia-verdades, fazer politicagem, maquiar imagens bandidas tornando-as belas ou sacras.
Nossos jovens estão crescentemente interessados tão só em status, glória e muito dinheiro. Vocação é algo de que não se ouve mais falar. Valores é expressão old fashion em muitas famílias.
Adolescentes e crianças estão expostos à prática quase diária - e de longas horas - de jogos eletrônicos de guerra, simuladores de sangrentas batalhas e guerrilhas urbanas cujos efeitos a médio e longo prazo poderão ser muito mais nocivos do que se pode imaginar. Horas e horas que podem ser dedicadas à tecnologia, é claro, mas também a atividades de paz e de humanismo. Estou falando de equilíbrio.
A realidade está muito nítida: primeiro mundo numa esquina, quarto mundo do outro lado da rua. É um fenômeno inacreditável, mas é realidade real, não virtual.
Precisamos nos tornar mais seletivos, mais críticos. Não só consumidores imediatos das melhorias tecnológicas e defensores de sua disseminação indiscriminada, mas, conhecedores de suas reais aplicações e de nossas reais necessidades.
Nossa influência no mundo é marcante e significativa. Precisamos agir como seres decididos na sociedade em que estamos inseridos. Comecemos a detectar os paradoxos que estão ao nosso redor: perda de tempo causada pela tecnologia; falta de soluções para muitos; acesso a conhecimento de ponta ''nas pontas dos dedos'', mas didática obsoleta nas escolas; retrocesso na formação do caráter; busca de progresso exclusivamente material, perda dos valores, etc.
Falemos sobre isso com as pessoas com quem nos relacionamos e comecemos a ressaltar os pontos que merecem maior observação de todos. Tentemos descobrir a origem de tudo isso. A partir daí, o desafio é pensar em soluções. Tentemos recriar as soluções que estão sendo apresentadas. Pensemos em aplicações mais eficazes e de proveito a um número maior de pessoas, cada vez maior.
Há muito o que ser feito. Não apenas deixarmos as coisas nos ingerir e digerirem nossa capacidade de discernimento, livre arbítrio e decisão. Somos perfeitamente capazes de viver num mundo de alta tecnologia cem por cento voltada a melhorar a qualidade de vida e não a inverter ou invalidar nossos valores. Nos dias de hoje, essa missão pode ser a chave para um mundo de paz e de esperança que todos almejamos.
ABRAHAM SHAPIRO é engenheiro industrial e consulto de novos negócios


