Parece incrível, mas estamos quase sem nenhum tempo para curtir aquilo que só pode ser sentido sem pressa, sem stress. Fascinados com os ''brinquedos'' que a alta tecnologia tem colocado em nossas mãos - soluções a problemas que sequer sabíamos existir ou que ainda nem mesmo existem - talvez até já tenhamos esquecido a dura e penosa realidade que atinge a maior parte de nossa população.
Para quem, de fato, destina-se essa enxurrada de novidades de todos os dias? Quais problemas estão, realmente sendo resolvidos? Se pararmos para refletir ficaremos assustados com o fato de que fomos armadilhados num modelo mental que está programado para fazer-nos ver apenas a parte de um imenso quadro e esquecermos o todo. Como resultado, estamos cada dia mais insensíveis e cegos, porém, equipados com alta tecnologia da cabeça aos pés, do chuveiro ao travesseiro.
Mentir é cada vez mais normal. Normal também é vermos velhos e crianças buscando algum alimento em sacos de lixo, na calada da noite, para não morrerem de fome. Normal é manipular pessoas, dar propina em troca de vantagens, usar meia-verdades, fazer politicagem, maquiar imagens bandidas tornando-as belas ou sacras.
Nossos jovens estão crescentemente interessados tão só em status, glória e muito dinheiro. Vocação é algo de que não se ouve mais falar. Valores é expressão old fashion em muitas famílias.
Adolescentes e crianças estão expostos à prática quase diária - e de longas horas - de jogos eletrônicos de guerra, simuladores de sangrentas batalhas e guerrilhas urbanas cujos efeitos a médio e longo prazo poderão ser muito mais nocivos do que se pode imaginar. Horas e horas que podem ser dedicadas à tecnologia, é claro, mas também a atividades de paz e de humanismo. Estou falando de equilíbrio.
A realidade está muito nítida: primeiro mundo numa esquina, quarto mundo do outro lado da rua. É um fenômeno inacreditável, mas é realidade real, não virtual.
Precisamos nos tornar mais seletivos, mais críticos. Não só consumidores imediatos das melhorias tecnológicas e defensores de sua disseminação indiscriminada, mas, conhecedores de suas reais aplicações e de nossas reais necessidades.
Nossa influência no mundo é marcante e significativa. Precisamos agir como seres decididos na sociedade em que estamos inseridos. Comecemos a detectar os paradoxos que estão ao nosso redor: perda de tempo causada pela tecnologia; falta de soluções para muitos; acesso a conhecimento de ponta ''nas pontas dos dedos'', mas didática obsoleta nas escolas; retrocesso na formação do caráter; busca de progresso exclusivamente material, perda dos valores, etc.
Falemos sobre isso com as pessoas com quem nos relacionamos e comecemos a ressaltar os pontos que merecem maior observação de todos. Tentemos descobrir a origem de tudo isso. A partir daí, o desafio é pensar em soluções. Tentemos recriar as soluções que estão sendo apresentadas. Pensemos em aplicações mais eficazes e de proveito a um número maior de pessoas, cada vez maior.
Há muito o que ser feito. Não apenas deixarmos as coisas nos ingerir e digerirem nossa capacidade de discernimento, livre arbítrio e decisão. Somos perfeitamente capazes de viver num mundo de alta tecnologia cem por cento voltada a melhorar a qualidade de vida e não a inverter ou invalidar nossos valores. Nos dias de hoje, essa missão pode ser a chave para um mundo de paz e de esperança que todos almejamos.
ABRAHAM SHAPIRO é engenheiro industrial e consulto de novos negócios

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