Soluções ortodoxas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de outubro de 2001
André Gustavo Stumpf 
A iminência da guerra contra o terrorismo já produziu consequências capazes de justificar livros e mais livros de cientistas políticos atentos ao cenário internacional. Em primeiro lugar, a imprensa norte-americana, docemente constrangida, admitiu a autocensura para não abalar o moral do país. O mito do jornalismo investigativo rolou escadas abaixo. Repórteres duros na queda devem atuar somente no mundo subdesenvolvido. Dentro de casa, jamais.
O segundo ícone derrubado foi a taxa de democracia fora dos Estados Unidos. Ou dentro do país, quando aplicada a estrangeiros. No pacote de medidas contra o terrorismo, algumas permitem que não-americanos sejam detidos, sem culpa formada, por até 48 horas com o objetivo de facilitar investigações. Ao tempo do Ato Institucional nº 5, no Brasil, era exatamente assim.
Há um detalhe nesse conjunto de medidas contra os direitos civis que é inquietante. O governo norte-americano passa a aceitar como válida uma confissão obtida mediante tortura, desde que praticada fora do território dos Estados Unidos. É o reconhecimento de antiga prática. Washington apoiou ditadores em quase todos os países latino-americanos. O que acontecia fora de seu território não incomodava. Agora, legaliza-se a tradicional maneira de agir das polícias do continente.
A terceira margem dessa travessia é mais dolorosa para os economistas. A lenda de que o mercado, entidade mítica, resolve tudo também foi ultrapassada pelos fatos. O governo dos Estados Unidos está se preparando para realizar investimentos da ordem de US$ 100 bilhões para reativar a economia, melhorar o mercado de ações e dar um alívio às empresas de transporte aéreo. Intervenção estatal em nível nunca visto na pátria do liberalismo. A necessidade fez o sapo pular.
É curioso que o remédio aplicado para livrar o mundo do terrorismo admite a utilização de métodos da barbárie. Tortura é um deles. Intervenção estatal havia no Brasil até os anos 80. Foi política criticada e ironizada na última década, quando quase todas as empresas estatais foram vendidas a particulares.
Mas foi por intermédio dessa política que o presidente Franklin Delano Roosevelt e seu fiel assessor Harry Hopkins retiraram os Estados Unidos da recessão. Investiram mais de US$ 50 bilhões na criação de novos empregos.
Diante da crise provocada pela explosão das torres gêmeas de Nova York e do ataque ao Pentágono, o modelo de Roosevelt, que é da década de 30, volta à moda, misturado a um macartismo de ocasião. Restrição no terreno de direitos civis e fortíssimos investimentos estatais para reerguer a economia. Os economistas brasileiros precisam desconfiar mais dos modelos que os norte-americanos lhes apresentam. Nos momentos de crise, eles, simplesmente, não funcionam.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília


