SOLUÇÃO ENERGÉTICA - Energia renovável pode reverter aquecimento global
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Eli Araujo <br> Reportagem local 
A adoção de novas experiências com energias renováveis pode reverter a caótica situação do planeta que se agrava a cada dia com o aquecimento global. A avaliação é do superintendente de Energias Renováveis da Hidrelétrica de Itaipu, Cícero Bley Junior, idealizador de um projeto que consiste na produção de energia elétrica a partir de dejetos de animais.
A experiência, pioneira no Brasil, reúne 41 pequenos produtores no Condomínio de Energias Renováveis na Bacia do Rio Ajuricaba, em Marechal Cândido Rondon (Oeste). Cada proprietário tem um biodigestor primário ligado a uma central termoelétrica por meio de um gasoduto. A central transforma o biogás em energia elétrica. O projeto está em fase de implantação e vem chamando a atenção de especialistas de várias partes do mundo. Quando estiver pronto, vai gerar energia suficiente para abastecer 170 domicílios ou uma localidade com cerca de 700 habitantes.
Bley explica que as unidades que utilizam os dejetos e geram menos de um megawatt de energia podem ser insignificantes para uma grande distribuidora. No entanto, podem ser usadas de forma complementar ao sistema convencional e representar uma solução energética para o pequeno produtor rural.
As pequenas obras são o fundamento dessa nova experiência?
São obras muito pequenas em relação ao sistema convencional, mas em relação a uma propriedade rural, é tudo que o produtor precisa. Na verdade, ele reduz a zero o custo da energia dele com o aquecimento de água, geração de vapor, com todas as aplicações que tem uma propriedade e ainda vende o excedente. Existem várias escalas de produção de energias renováveis. Abaixo de um mega é pequena em relação às grandes operações que nós temos com energia.
E qual a importância dessa fonte de energia?
A principal importância é se descobrir no meio rural uma nova vocação que é geração de energia. Além de produzir alimentos, as atividades rurais brasileiras são também capazes de produzir elementos energéticos muito fortes, como o etanol e o biogás. O biogás é um produto combustível do porte do etanol, só que socialmente mais justo porque muita gente pode produzir biogás em sua propriedade, enquanto o etanol concentra a produção na indústria canavieira.
Por que Itaipu resolveu investir nesse tipo de energia, já que a energia hidrelétrica é limpa e abundante?
Itaipu está cumprindo o seu papel. A hidrelétrica não precisa fazer mais nada porque é pura energia renovável, mas ela fica solidária com a sociedade brasileira e principalmente com o governo federal, que tem políticas de redução de emissão de gás do efeito estufa. Isso atinge fortemente o ciclo das águas e Itaipu depende 100% de água. Todo sistema hidráulico necessita conter o efeito estufa que está ocorrendo no mundo inteiro. Isso demonstra a necessidade de Itaipu estar atuante também nessa área, protagonizando alguma coisa e não somente olhando as mudanças climáticas acontecerem.
As fontes de energia limpa geram um impacto ambiental menor?
Qualquer intervenção humana na natureza gera impacto ambiental. Se você for optar pela energia eólica, por exemplo, você vai ter um impacto visual, um impacto possível na fauna local, que seria o choque de pássaros nas imensas pás eólicas. E aquela modificação total na paisagem com a inclusão dos aerogeradores.
A energia solar também tem impacto ambiental porque precisa ser captada em painéis fotovoltaicos e esses painéis serão implantados em algum lugar. As hidrelétricas causam impacto na área de alagamento. Para fazer o biogás, você precisa instalar um biodigestor e assim por diante. O fato, porém, é que todas as renováveis são muito menos agressivas do que as energias fósseis, já que é preciso tirar das profundezas da terra o material que estava enterrado. Você traz esse material para a superfície e queima, gera um excesso de gás carbônico. É isso que está provocando as mudanças climáticas.
Como o Brasil se situa nesse contexto de energias renováveis?
O Brasil, nos últimos cinco anos, está trabalhando fortemente nisso. Países que começaram há 10, 15 anos, como a Alemanha, por exemplo, têm encontrado resultado muito significativo para as matrizes energéticas. O mundo vai buscar isso, os consumidores vão buscar produtos gerados com o mínimo de impacto ambiental possível. Em vez de você ter uma usina a carvão dando energia para uma cooperativa de carne na China, você tem uma energia hidrelétrica dando energia limpa para uma cooperativa de carne no Brasil. Assim, a carne brasileira será muito mais valorizada do que a carne chinesa, que é feita às custas de enormes impactos ambientais, como o impacto do carvão. É esse jogo que está começando a acontecer. Nós temos uma grande vantagem nisso porque 86% de nossa energia é hidrelétrica, e isso significa uma vantagem competitiva comercial também.
É possível reverter as mudanças climáticas com a adoção de novas experiências de energias renováveis?
Com certeza absoluta. Estive na Conferência de Copenhague (Dinamarca), e depois fui para Cancún (México). E vejo o que a inteligência mundial está fazendo para evitar a emissão de gás do efeito estufa. Isso amadurece a cada momento. Nós vemos na Alemanha num salto gigantesco de tecnologia, substituindo um modelo de importação de energia nuclear francesa que reinou durante décadas. A Alemanha está fazendo um avanço enorme em estudos das energias renováveis, renovando materiais, renovando eficiência, uma série de coisas. Depois nós vemos a Aústria bastante desenvolvida, a propria Itália, a Espanha. O avanço tecnológico disso é uma coisa absurdamente grande; os países estão se modernizando. Aqui na América também começa a dar certo esse tipo de coisa. Agora, é esperar para ver esse negócio acontecer com muita força, muita capacidade.
Qual o risco de ficar na dependência de apenas uma fonte, em especial da energia nuclear, como acontece com a França e o Japão?
No Japão houve um desastre natural imprevisível, que explodiu a Usina de Fukushima, expondo uma grande parte da população à radioatividade. Todas as usinas nucleares são colocadas praticamente nas costas dos países. Angra, por exemplo, está a nível zero do mar porque precisa de muita de água para resfriar a reação nuclear. Se acontece uma elevação do volume de água ou se há um maremoto, como aconteceu o Japão, pode arrasar essa usina, exatamente como aconteceu. O Japão recuperou áreas, estradas, recuperou tudo, mas não consegue recuperar a usina nuclear, que é um perigo enorme. Além do que, em períodos normais, essa usina produz resíduos altamente radioativos que ficam em atividade durante centenas de anos. É uma energia que vem sendo utilizada, mas entra hoje no rol das energias perigosas. Embora não gere gás de efeito estufa, mas gera resíduo terrível de ser gerenciado.


