Nesta época em que se reclama efetivas mudanças em todos os setores, a sugestão proposta pelo Fórum de Líderes Empresariais Gazeta Mercantil e levada ao presidente Fernando Henrique Cardoso, no sentido de ser privatizada a gestão dos recursos que as empresas pagam, direta e indiretamente, ao Governo para aplicação em programas da área social é, sem dúvida, uma excelente idéia. No entendimento dos empresários que foram ao presidente, verdadeiros pesos pesados da economia brasileira, se as empresas assumissem a responsabilidade pela gestão destes recursos, ‘‘o resgate da dívida social seria mais efetivo, imediato e de melhores padrões de qualidade’’. Não se trata, como enfatizou o presidente do Fórum, empresário Rinaldo Campos Soares, de retirar ao Estado sua responsabilidade no que diz respeito às políticas destinadas a reduzir a distância entre os mais ricos e os mais pobres, mas de um esforço complementar de engajamento das lideranças empresariais em torno da causa da cidadania.
Na verdade, é mais que isto. Este tipo de descentralização produziria, desde logo, imensa economia na medida em que evitaria o tão famoso ‘passeio’ do dinheiro, coisa comum na vida pública e que ocorre não apenas com os recursos que empresas pagam para programas sociais. O Governo, de modo geral, necessita de mecanismos para arrecadar os tributos e tem políticas para redistribuí-los. É uma atribuição natural, que produziria muitos ganhos se houvesse racionalização e menos burocracia no serviço público. De qualquer modo, em face da atual estrutura, é quase impossível pensar em mudar tudo. O que os empresários sugeriram, porém, é mais objetivo: trata-se de recursos com destinação específica que são recolhidos por eles, passam por uma série de órgãos (com um custo para cada etapa) e, depois, são redistribuídos. Se ao invés disto, os recursos fossem diretamente geridos pelas empresas haveria grande economia apenas na extinção da cadeia que se forma. E, ademais, as verbas seriam usadas na própria região de origem, com evidentes vantagens sociais.
Em princípio, pelo que se percebeu em face da reação observada, o presidente não se mostrou muito entusiasmado com a idéia. É justificável. Este tipo de verba é muito importante para os políticos. Se de repente for quebrada a cadeia existente, muitos burocratas perderiam o emprego. Pior, grande número de políticos também ficaria sem a sua grande ‘fonte’ de atração para o eleitorado, pois, como se sabe, a manipulação de tais recursos proporciona força eleitoreira muito grande. Também o fato de se pensar em aplicar aqueles recursos na região em que são arrecadados não agrada aos políticos: interessa mais manipular, pegar dinheiro aqui e jogá-lo em outros pontos, onde eventualmente rende mais dividendos políticos.
Mas como a idéia é boa, e levando em conta a força representada pelos empresários autores da proposta ao presidente, é possível que o documento receba a atenção que merece, sendo no mínimo alvo de uma análise mais aprofundada. Afinal, mesmo não se mostrando muito entusiasmado com a sugestão, o presidente Fernando Henrique Cardoso destacou que estão surgindo muitas idéias boas nestes tempos, incluindo esta. O presidente ainda enfatizou que o momento atual exige a busca de nova forma de organização da sociedade. É correto. Alternativas que no passado eram adequadas, soluções que ‘davam certo’ em outras épocas, hoje não funcionam. E em todos os setores, inclusive neste do melhor aproveitamento dos recursos carreados pelas empresas para a área social, é possível viabilizar novas fórmulas capazes de oferecer melhores soluções a problemas antigos.

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