Solto no ar - Ricardo Noblat
Ricardo Noblat
Solto no ar
Está tudo ao contrário do que o presidente Fernando Henrique Cardoso planejou - ele e os que o ajudaram a conceber em detalhes o projeto de reeleição. A essa altura, alguns pontos do projeto bicharam. E aquilo que na essência tinha sido concebido para favorecer o presidente voltou-se contra ele. Senão vejamos.
Uma campanha eleitoral de curta duração beneficia os candidatos mais conhecidos, especialmente os que lideram as pesquisas de intenção de voto. Como para cada eleição no Brasil se faz uma lei, a deste ano prevê uma campanha curta, ao gosto do presidente, que se pensava destinado a se reeleger ainda no primeiro turno.
Fernando Henrique caiu nas pesquisas, e nada garante que não cairá mais. Luiz Inácio Lula da Silva subiu, surpreendendo a ele mesmo que não esperava por essa agora. O efeito vagabundo ainda não produziu todo o estrago possível. Resultado: o melhor para o presidente seria uma campanha mais longa para que pudesse se vender melhor.
Como jamais supôs que viesse precisar debater com Lula na TV, o presidente gostou da lei que condiciona a realização de debates à presença de todos os candidatos cujas coligações partidárias tenham representação no Congresso. Um presidente não compareceria a um estúdio de televisão para debater com candidatos inexpressivos.
O melhor para Fernando Henrique agora seria poder enfrentar Lula ao vivo e a cores para todo o país. E - quem sabe? - derrotá-lo por antecipação, descartando a necessidade de segundo turno. Lula é que não tem no momento o menor interesse em debater com o presidente.
Era intenção de Fernando Henrique enclausurar-se em Brasília e fazer campanha somente por meio do rádio e da televisão. Não precisaria se expor em comícios pelo país afora, nem ser obrigado a subir em todos os palanques montados nos estados pelos mais diversos e inconciliáveis aliados de ocasião. Terá que correr o país pedindo votos. E terá que escolher em que palanques subirá, agradando a uns e semeando desafetos que poderão abandoná-lo num eventual segundo turno. É razoável imaginar que o MST, a CUT e os grupelhos radicais de sempre se ocuparão em atanazá-lo por onde passe. Um pesadelo.
E que discurso ele usará para obter o segundo mandato que já esteve ao alcance da mão? Quando a eleição parecia um alegre passeio dominical e o ministro Sérgio Motta ainda estava vivo, os estrategistas da campanha pensavam que Fernando Henrique poderia apresentar-se com um discurso que o diferenciasse da banda direita do seu governo. Serjão e os nostálgicos de um PSDB com identidade própria sonhavam com uma eleição consagradora que permitisse a Fernando Henrique cumprir um segundo mandato com menos cara de PFL. Ora, muito bem. O PSDB ensaia agora enfrentar a campanha com o discurso do PFL. No lugar de Serjão, entrou Antonio Carlos Magalhães.
Em resumo: a campanha desenhada a régua e compasso pelo presidente desmanchou-se no ar.
- RICARDO NOBLAT é jornalista em Brasília





