A ideia de que somos solidários ou egoístas é reducionista, pois entende o ser humano de forma binária e simplificada. O pensador francês Edgar Morin defende que somos naturalmente as duas coisas: 100% altruístas e 100% egoístas. Dependendo da situação e de nossas vivências, pode aflorar mais um traço ou outro, mas nenhum dos dois deixa de existir por completo.

No entanto, o que se tornou problemático em nosso período histórico é o domínio, quase absoluto, do egocentrismo. Contudo, diante da pandemia que invadiu o mundo, emergem traços de solidariedade que pareciam adormecidos, o que renova a esperança numa outra sociabilidade possível. Mas, temos que ter cuidado quando falamos de solidariedade, porque esta é sempre um fenômeno plural e complexo.

Entre as suas múltiplas manifestações, destacam-se duas em particular: a solidariedade artesanal e a solidariedade institucional. Muitas vezes são apresentadas como concorrentes, mas as entendemos como complementares, já que ambas são incompletas em si e precisam uma da outra para assegurar coerência e potência.

A solidariedade artesanal é mais primitiva, tem a ver com valores como afetividade, sensibilidade, cuidado e compaixão, ocorre no contato face a face, nas relações interpessoais, no plano microssocial. Está ligada à filantropia, à caridade e à vida comunitária, se expressa de forma voluntária e pode ser ou não organizada.

A solidariedade artesanal ocorre sob dois enfoques distintos, a forma vertical e a horizontal. A vertical apresenta fortes relações de poder, a ajuda vem de cima para baixo, prevalece o “eu faço para” e não o “eu faço com”. Pode se manifestar em momentos extremos, propondo-se a mitigar as mazelas circunstanciais. Em muitos casos, serve para suavizar as consciências e mascarar as estruturas sociais injustas. São exemplos situações em que patrões concedem pequenos “presentes” no lugar de salários justos e o cumprimento de direitos legais, ou quando se dá esmolas a necessitados, mas se faz oposição a programas de transferência de renda direta; ou ainda quando reclamam da má distribuição de renda, mas são contra políticas tributárias progressivas.

Por outro lado, a solidariedade artesanal sob o enfoque horizontal, substitui o "fazer para", pelo "fazer com". Esse tipo de solidariedade acontece a partir de relações de cooperação e de ajuda mútua. Geralmente está ligada a comunidades com fortes laços de corresponsabilidade, reciprocidade e propósitos emancipatórios. As lutas são conjuntas, fruto de um sentimento de pertencimento a uma coletividade.

O segundo tipo de solidariedade, aqui definido por institucional, tem sua origem legada aos estados modernos, com o avanço dos direitos civis, políticos e sociais. Tiveram seu ápice com os modelos de estado de bem-estar social, norteados por ideais de justiça social e de direitos universais. Esse tipo de solidariedade é pactuada entre os cidadãos e cristaliza-se no Estado, que assume a responsabilidade pelo bem viver coletivo.

Para ficar num exemplo simples: Todo o ano por altura da volta às aulas fazem-se campanhas para a aquisição de material escolar para crianças de baixa renda, o que mobiliza pessoas de boa vontade por todo o país. Numa perspectiva de solidariedade institucional, essa luta deveria avançar para o plano dos direitos, fazendo com que o fornecimento de material escolar passe a ser dever do Estado, para que ninguém precise mendiga-lo.

Só conjugando a solidariedade artesanal e a institucional é que se avançará para uma sociedade solidária de fato, capaz de unir corações e mentes num projeto de humanização do humano e de bem viver coletivo.

Luís Miguel Luzio dos Santos, professor de socioeconomia na UEL (Universidade Estadual de Londrina).

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