O comportamento solidário faz parte do instinto de sobrevivência e do sentimento de pertença que nos une como espécie humana. Isso fica evidente em momentos extremos como em calamidades ambientais, guerras, epidemias ou sempre que a vida se encontra ameaçada, o que tende a provocar comoção coletiva e identificação com o outro. A solidariedade está vinculada à percepção de interdependência e empatia e ao compromisso com o semelhante. Essa realidade evidencia-se especialmente em pequenas comunidades, nos círculos de vizinhança ou nas vilas do passado, em que o princípio de causa e efeito desperta um comprometimento espontâneo de mutualidade.
A questão da solidariedade deve ser entendida sob duas óticas que se complementam: a solidariedade face a face e a institucional. A primeira está ligada ao universo das relações interpessoais, voluntárias, organizadas ou não, que nos fazem aproximar uns dos outros e nos sensibilizar com a dor e a causa alheia. Já a solidariedade institucional avança para a esfera política, deixa o voluntarismo e se consolida no plano dos direitos, há um compromisso com as estruturas que balizam a vida em sociedade para que assegurem justiça social e dignidade humana.
O plano da solidariedade face a face é muitas vezes organizado sob a forma de associações, ONGs, comunidades, igrejas, clubes. É alimentado por elementos como sensibilidade, afetividade, cuidado e empatia e pode expressar-se tanto de forma vertical como horizontal. Na solidariedade vertical, predominam os vínculos de dependência, do tipo "fazer para", "ajudadores e ajudados", o que tende a produzir dominação, poder e subserviência. Já na solidariedade horizontal, os vínculos acontecem no mesmo nível, sem hierarquia, os indivíduos se unem por laços identitários de comprometimento mútuo, numa relação do tipo "fazer com".
Por sua vez, o universo institucional caracteriza-se pela formalização da solidariedade através de um pacto de mutualidade entre os cidadãos, em que por meio do Estado, e de forma compulsória, assume o compromisso em prover o bem-estar coletivo. O Estado incorpora um conjunto de obrigações com a coletividade e assegura um vasto repertório de instrumentos de seguridade e proteção social em prol do bem comum. Todavia, algumas situações práticas expressam bem a dificuldade de estratos da sociedade brasileira em aceitarem a solidariedade institucional, como no caso da oposição a avanços trabalhistas vistos como obstáculos à liberdade de negociação, pensamento típico de quem sabe que leva vantagem na relação. Isso ficou especialmente explícito na regulamentação do trabalho doméstico, que só recentemente entrou em pauta em virtude do pensamento conservador e elitista que sempre quis substituir direitos por roupas usadas, sobras de comida ou palavras de simpatia.
Diante do dilema entre as relações face a face e o plano institucional, há a necessidade de alinhar as duas dimensões numa via de mão dupla capaz de conduzir a níveis superiores de cidadania, participação social e sensibilidade. A solidariedade plena precisa incorporar a dimensão política, onde a estrutura da sociedade é arquitetada, as políticas sociais efetivadas e os direitos são formalizados e assegurados. Contudo, é da mesma forma fundamental o envolvimento direto com o outro, prioritariamente por meio do engajamento em organizações da sociedade civil que desenvolvem trabalhos reconhecidos em favor de causas coletivas e, assim, fortalecer as relações interpessoais nas quais os laços de afeto e envolvimento mútuo são exercitados e o nosso processo de humanização é construído. Como dizia Aristóteles, "a virtude se desenvolve por meio do hábito".

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