Ano: 1968.
Posto de gasolina na saída do lado sul de São Paulo.
Apesar da fraca luminosidade da madrugada, dois frentistas curiosos reconhecem aqueles rapazes no interior do carro:
- Mas será que são Vieira e Vieirinha mesmo?
- Claro que são. Tenho todos os discos deles. É a melhor dupla de moda de viola desde Tonico e Tinoco.
- Tem certeza?
- Ô rapaz, e eu sou de inventar coisas?
- Por que a gente não pede autógrafo pra eles?
- É...mas, você pede primeiro que eu sou meio avexado pra essas coisas.
Simpáticos, os rapazes confirmam que são realmente a famosa dupla. Dão aos fãs fotografias autografadas. Um representante da gravadora que os acompanhou até ali, paga a conta do combustível e se despede. Vieira parece preocupado.
- Vai tranquilo, menino. Se acontecer algo de grave eu entro em contato com vocês por telefone - diz o funcionário da gravadora.
- Mas estamos indo para o Norte do Paraná. A comunicação pode ser complicada... - diz Vieira.
- Londrina é uma cidade nova, mas é muito boa. Se houver problema, a gente acha vocês. Qual é mesmo o hotel onde vão ficar?
- Não vou me lembrar do nome agora. Mas disseram que fica logo atrás da Catedral.
Vierinha tenta espantar a sombra que parece envolver aquela despedida:
- Não vai acontecer nada de ruim não, meu compadre. Fé em Deus e pé na tábua.
É...Deus é quem sabe.
O carro arranca rumo ao Norte do Paraná enquanto os dois frentistas ficam a soprar a tinta ainda fresca das assinaturas dos ídolos nas fotografias.
‘‘A Capital do Norte dizem que é Londrina...’’
A moda sertaneja corre solta nos rádios. O movimento no aeroporto é intenso. As noites nos bordéis são fantásticas. Champanhe importado, cardápios refinados. Mulheres procedentes dos grandes centros chegam em busca do dinheiro que dança no embalo da cafeicultura. Aventureiros e sonhadores, picaretas e cafetões, gente honesta e trabalhadores de muita fibra: que cidade!
Sexta-feira. No começo da noite, acontece o fato lamentável: morre em São Paulo o pai do cantor Vieira.
O telefone ainda é um meio de comunicação complicado. Às vezes há necessidade de se ‘‘aprazar’’ o telefonema. Isto é, solicitar a ligação até meia-noite do dia anterior. Correios fechados. A melhor maneira de se comunicar é o rádio. Pois a família de Vieira entra em contato com a Rádio Tupi. O locutor pede com tom de urgência na voz:
- Atenção Londrina: se algum ouvinte puder, informe ao nosso querido amigo Vieira, da dupla Vieira e Vieirinha, o passamento de seu pai. A dupla encontra-se hospedada nesta pujante cidade do Paraná num hotel que fica atrás da Catedral. Pedimos que nos faça este favor o mais rapidamente possível.
O Hotel Bourbon destaca-se na alameda pelo seu aspecto chique e aconchegante. Isto, porém, não causa a menor inibição naquela mulher de maquiagem agressiva, roupa sensual e xale sobre os ombros. Ela desce do táxi e entra no hotel por volta das 23 horas.
É atendida por um funcionário do hotel, que fica ligeiramente constrangido quando a mulher revela que trabalha na zona de meretrício. Mas uma das normas do hotel sempre foi esta: nada de preconceito.
A dama da noite conta o que está acontecendo:
- Ouvi no rádio. Pediram para avisar o Vieira, que está hospedado aqui.
A dupla de violeiros, naquele exato instante, apresentava-se em um circo instalado na cidade.
A mulher insiste. Quer falar com o proprietário. Os funcionários então decidem chamar o senhor Caetano Vezozzo.
Não há dúvida: uma das piores missões do mundo é transmitir a alguém a notícia da morte de um ente querido.
Logo Vieira e Vieirinha retornariam do show. Mas a informação pode ser inverídica e, a esta altura, já não há certeza se quem morreu é o pai do cantor que faz a primeira ou a segunda voz. Orientado pelo sr. Vezozzo, o funcionário pede que Vieira e Vieirinha completem a ficha que preencheram ao chegar, colocando ali também os números de telefones de parentes em São Paulo.
Cansados, logo em seguida os músicos vão para o apartamento.
O sr. Vezozzo espera o início da madrugada, quando fica mais fácil conseguir ligações e telefona para a casa de Vieirinha. A notícia está confirmada. Então o hoteleiro faz o que lhe parece mais sensato. Antes mesmo de acordar a dupla, encomenda em seu próprio nome duas passagens de avião para a capital paulista.
Às 5h30 finalmente vai dar a notícia. Vieira fica abalado.
- Não se preocupe, filho. Vá para o aeroporto agora mesmo, em poucas horas vocês estarão em São Paulo - diz o sr. Vezozzo
- Mas a gente não vai conseguir passagens...
- Já estão compradas.
- E o hotel?...O empresário está com o nosso carro e ficou de vir aqui pra pegar a gente, acertar cachê, pagar a conta, essas coisas.
- Depois a gente vê isso. Neste momento sua missão é outra, filho. Você precisa apenas ir até lá se despedir de seu pai - acrescenta o sr. Vezozzo.
Emocionado, o cantor agradece e segue para o aeroporto, ao lado do amigo Vieirinha. Um funcionário do hotel os acompanha até o embarque.
Terra de vigaristas e otários, Londrina é também campo fértil para golpes e desconfianças. Por isso há até quem acredite que o sr. Vezozzo foi enganado. O empresário não vai aparecer nunca mais, o hoteleiro ficará sem ver a cor do dinheiro da hospedagem e muito menos das passagens.
- Meu coração não se engana assim tão fácil - diz ele, tranquilo.
E seu velho coração está certo. O empresário aparece e acerta a conta. Três semanas depois, Vieira e Vieirinha passam por Londrina rumo ao Noroeste do Estado. A dupla vai fazer um show em Paranavaí. Mas faz questão de ir até o Hotel Bourbon, falar com o sr. Caetano Vezozzo.
Vieira não contém a emoção durante o abraço.
- Londrina me deu uma lição de solidariedade - diz o músico, ainda com os olhos úmidos e avermelhados.
Brota neste momento uma grande amizade.
O proprietário do Hotel Bourbon, sr. Caetano Vezozzo faleceu em novembro de 1999.
Vieira tem hoje 74 anos e reside em São José do Rio Preto (SP).
Vieirinha faleceu em 1990.
- NELSON CAPUCHO é jornalista, poeta e escritor em Londrina

mockup