A forma como o atentado terrorista contra o Charlie Hebdo comoveu o mundo demonstra que aqueles que defendem a violência como resposta para solução de problemas são uma minoria. Mais uma vez o planeta é tomado por um doloroso sentimento, o qual merece a melhor das respostas: fortalecimento da solidariedade.
Em sua forma verbal a palavra é muito mais encantadora – eu luto -, entretanto, é o substantivo que fala mais alto nesse momento. Para diferentes grupos religiosos, na verdade, mesmo a forma verbal é usada com péssimos propósitos. A base dos diversos conflitos religiosos tem sido historicamente a intolerância. Assim, romanos classificavam todo aquele que possuía cultura diferente da sua como bárbaro. Também, durante as cruzadas, em definição errada, simplória, maometano foi definido como sinônimo de muçulmano. Igualmente, os nazistas, intitulando-se raça superior, justificavam o genocídio. E com a nossa nada inteligente participação, graças à indústria cultural, não é de hoje que árabe é sinônimo de terrorista. Pra onde quer que se olhem os conflitos, em maior ou menor grau, estão estabelecidos. Cristãos e muçulmanos, católicos e protestantes, carismáticos e pentecostais. Mas o uso da força, como assevera Marx Weber, deve ser monopólio do Estado.
Determinados crimes se revestem de um significado maior. Atingem a liberdade de expressão, a imprensa, as corporações muitas. A humanidade, em sua forma mais visível, fica comovida com um atentado terrorista, seja um 11 de setembro ou casos menores. Esses atentados causam 19 mil mortes por ano, mas não é o número em si - quase três mil no WTC, ou três mortes na Maratona de Boston – que importa, mais comovente deveriam ser as mortes silenciosas. Caladas pela indústria cultural, sufocadas por políticas egoístas, pela visão míope que olha políticos e política de forma quase cega. Dois projetos políticos a muito curto prazo, pensam sobretudo na reeleição. Um pacote de aumento de impostos definido como traição à população, o outro aumento definido como política de austeridade. Como resultado, típico de um saldo terrorista, ambos contribuem para 42 mil mortes por arma de fogo a cada ano no País, mortalidade infantil de 15 para cada mil nascimentos, além dos índices desastrosos em saneamento e saúde e educação.
Razões para sentimento de luto atingem, no Brasil ou no mundo Árabe, as questões ambientais. Aumento dos níveis dos oceanos na costa brasileira e do Egito. A escassez de água. As emissões de gases estufa, causadas no Brasil, 4º maior emissor do planeta, sobretudo por desmatamento e queimadas, encontram no Catar os maiores índices per capita do planeta. Falta de sustentabilidade das políticas e das ações individuais aceleram o processo de desertificação comum às duas regiões. A palavra-chave para se resolver conflitos, sejam ambientais ou religiosos, é solidariedade. Talvez, seja esse sentimento que faz o Brasil ter enorme notoriedade quando o assunto é diplomacia – a ponto de, não por acaso, historicamente, fazer todo ano o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. Talvez, o mundo devesse olhar mais para o Brasil. Quem sabe, os terroristas devessem também, não como aquela minoria que os quer olhando para o Congresso Nacional, mas um olhar atento para o sincretismo brasileiro, no qual, apesar das diferenças, permite às mais diferentes religiões conviverem em relativa harmonia. Se todas elas pudessem chegar a um consenso, pediriam que você escolhesse seu Deus: Deus, Alá, Javé, Maomé, Oxóssi, Buda, Jesus, Tupã... e a ele suplicasse por solidariedade. Que pedisse por um mundo em que as pessoas não o levassem tão a sério. Afinal, um mundo levado tão a sério a ponto de o humor se tornar profissão de risco não tem graça nenhuma.

REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado emAnálise Ambiental e Policial Militar em Londrina




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