Solidariedade e realidade
O futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá precisar de muita solidariedade para desfazer os nós que encontrará a partir de 1º de janeiro. Ao visitar Pernambuco seu estado natal neste fim de semana, Lula declarou-se empolgado com as manifestações de solidariedade que vem recebendo e declara nunca haver visto o povo com tanta vontade de participar, sem nada pedir.
A população ainda vive o clima de lua-de-mel com o governante que elegeu, e é certo que irá pedir, e muito mais cedo do que supõe o bem intencionado Presidente-eleito. Porque há muito a pedir, pela simples razão de que há muito por fazer e, pior ainda, por desfazer.
Esta última é a tarefa mais difícil, porque há que desfazer sistemas arcaicos, e para isso Lula precisará da solidariedade dos congressistas. É aí que deverá entrar sua habilidade de convencimento, que não chegará a bom termo sem concessões.
Governar com o coração, como proclama o futuro Presidente, é antes de tudo uma boa política, mas ele sabe que precisará agir também com o pragmatismo, que às vezes contraria as vontades do coração e exige ações de resultado prático e imediato.
Lula começa com um ''orçamento inadministrável'', segundo destacado político petista, e há grandes distorções entre o que a equipe do atual governo mostra e a realidade que a equipe de transição de Lula está encontrando, porque sabe-se que as coisas não vão bem no País. As dívidas interna e externa são descomunais e de custo alto, o juro básico chega aos 22% ao ano, o sistema financeiro opera com juros escorchantes e dificulta o giro da moeda, a atividade econômica está em queda, o nível salarial é baixo e é alta a cota de desemprego uma reação em cadeia que faz uma coisa puxar a outra.
Na esteira dessa situação irrompem os conflitos sociais, manifestados pela violência urbana e em cuja raiz repousa a luta pela sobrevivência. Se isso não bastasse, os últimos meses fizeram crescer a onda altista dos preços, motivada pela alta do dólar, gerando aumento da inflação. Lula precisa governar com o coração mas também jogar duro quando necessário, porque as adversidades são muitas e elas vêm de dentro e de fora do País, e no mais das vezes com sentimentos nada afetivos.
As maiores resistências o futuro governo irá encontrar não no seio do empresariado sempre hostilizado por Lula nos tempos de líder sindical mas agora visto por ele sob enfoque mais nítido e por isso não contundente. As resistências acontecerão dentro do Congresso, porque é ali onde se discute e se cria leis, onde se faz as reformas, onde se reclama reciprocidades e onde, também, projetos do Presidente podem ficar emperrados.





