Solidariedade e felicidade
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2001
Walmor Macarini 
Mais uma etapa do nosso tempo linear se encerra e outra está prestes a iniciar-se, e este é um tempo em que fazemos propósitos. Podemos fazê-los a qualquer dia, mas as passagens de ano têm a magia de nos transportar para momentos de meditação e de reexame de nossas coisas. Por tradição, elegemos cada ano novo como ponto de partida para jornadas diferentes. Geralmente, buscamos ser melhores do que temos sido, e isso significa que o melhor habita em nós.
Não temos obrigação de ser solidários, e nem Deus nos punirá ou nos premiará por boas ou más ações, mas ocorre que o exercício da solidariedade nos faz mais felizes. É bom quando alguém se solidariza conosco. Isso fará nos sentirmos dignificados. Podemos, então, fazer o mesmo com os outros.
Sermos indiferentes aos que nos rodeiam acaba nos deixando isolados e amargos. Passamos, nós próprios, a descrer da humanidade e a nos amarmos menos. Mas quando fazemos um pouco de esforço e resolvemos quebrar o nosso endurecimento, acionamos forças latentes em nós e assim permitimos que elas se libertem. É o momento em que nos fala a voz da alma ou do nosso Eu superior, que no mais das vezes desprezamos para dar lugar aos comandos do nosso eu menor, dominado pelos nossos egos e que invariavelmente nos subjuga e tortura.
Quando queremos ser rudes é porque imaginamos que atitudes delicadas sejam sinais de fraqueza. Mas fraqueza é justamente o contrário. Pouco importa se algumas pessoas não correspondem às nossas gentilezas. Não temos que nos preocupar com isso. Basta fazermos a nossa parte e quem não quiser, que não a faça, porque cada qual tem o direito de comportar-se como queira mas ocorre que não temos andado felizes e tal se dá porque queremos às vezes mostrar a pessoa durona que em verdade não somos.
Muitos dizem que é difícil ser solidário neste mundo de tanta injustiça. Mas a injustiça ocorre justamente pela ausência dessa solidariedade. Se pensamos assim, cerramos fileira com os injustos que tanto condenamos. Ficamos iguais. Não há outro caminho senão começarmos por nós. Os solidários são fortes. Os bons sentimentos estão dentro de nós e só temos de permitir que saiam da prisão em que os mantemos.
Os anos são apenas medidas de tempo linear que resolvemos adotar para impor sistemas em nosso viver, mas eles não guardam em si nenhum tesouro oculto e nenhuma sabedoria, porque esses atributos estão em nós. Os anos bons são aqueles que fazemos bons.
Sempre é tempo de festa, mas em fim de ano e começo de ano costumamos abandonar um pouco as atribulações, e festejar mais. Fazer festa é bom. Festa é um estado de espírito, que se manifesta em forma de risos, palavras cordiais, canto e dança, abraços e beijos, troca de carinho e afetividades. Podemos estar em atitude de meditação mesmo no meio da folia.
E o que é meditação? É apenas estarmos conscientes do que somos. E o que somos? Somos tão grandes quanto Deus. Porque parte dele. Esse estado de consciência nos liberta e permite que aflorem de dentro os nossos mais puros sentimentos. Solidariedade incluída.
Se quisermos beber, bebamos. Melhor beber uma boa pinga com fé do que água benta sem fé nenhuma. Pior é o azedume da contenção preconceituosa. A virtude não reside necessariamente dentro de limitações que nos impomos por força de conceitos doutrinários e religiosos, que só fazem contrariar nosso dom natural para os desfrutes da vida; nem o mal está obrigatoriamente presente na vida que se convencionou qualificar de mundana. A hesitação em buscar ser feliz abriga idéias de limitação e de tristeza.
A alegria é a mais sublime expressão da vida. Porque reflete um estado de alma. Então, neste ano novo que vai começar, não sejamos muito severos conosco, porque não há virtude em nos abstermos das alegrias e prazeres. Deus pode estar mais presente nos que estão em festa do que naqueles que se refugiam em prostração e penitência, porém repudiando, com a amargura de seu coração, os que estão felizes. As boas coisas se manifestam muito mais onde há alegria do que onde impera a tristeza e a lamentação. Nunca se soube de alguém que tenha se prejudicado por ser feliz.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


