O dia 18 de maio intitulou-se como Dia de Solidariedade às vítimas da Aids, quando no início da epidemia ''perdíamos'' muitas pessoas por conta da inexistência de medicamentos que pudessem pelo menos controlar a doença, nos sentindo todos impotentes frente à velocidade e fatalidade provocada pelo vírus. Com os avanços clínicos e medicamentosos, após a introdução da terapia anti-retroviral para doentes de Aids (coquetel), passamos a ''guardar'' este dia, não somente às vítimas, mas às pessoas que vivem e convivem com HIV/aids.
A complexidade que envolve esta patologia, tem merecido muitos estudos e reflexões e aprendemos nesta caminhada a rever conceitos, ''pré-conceitos'', desconstruir e construir novas categorias, pois esta agenda tem nos demandado isto. A epidemia já pôde caracterizar ''vítimas inocentes'' e/ou ''vítimas culpadas''. Procuramos dar uma identidade à doença e também nomear ''os culpados'', segregando pessoas, grupos ou segmentos em ''grupos de risco'' (homossexuais, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo) para delimitarmos nossas fronteiras.
Demos um estatuto próprio a um vírus, e desta forma, reduzimos o ser humano; matamos qualquer possibilidade de subjetividade, ou seja, pessoas estão sendo ''subtraídas'' por portarem um vírus, com destino perverso de virarem mera sombra social no cenário público.
Estar numa terceira década da epidemia, significa já termos decifrado alguns enigmas da doença e controlado a sua aceleração, nos evidenciando que os conhecimentos sobre a mesma evoluíram rapidamente: fomos construindo um repertório de novas tecnologias, avanços clínicos, farmacêutico, mas infelizmente ainda ''perdemos'' muitas pessoas do convívio social pelo preconceito ao qual estão submetidas e encarceradas, caracterizando o pior de todos os males sociais, a chamada ''morte social''.
Lembramos que ao rotularmos ''o aidético'' contribuímos para que a doença se evidencie e o sujeito perca a sua identidade, além de nos distanciarmos da doença e dar à Aids o significado simbólico à ''doença do outro'', logo eu não tenho nada a ver com isso! Temos todos muitos a ver com isso, pois a doença hoje atinge todas as camadas sociais, grupos, faixa etária, sexo, cidades, países e o mundo, logo não estamos imunes como pensávamos anteriormente.
Solidariedade sim! O preconceito e a discriminação dói na alma! Àqueles que vivem ou convivem com HIV/Aids, nossa solidariedade e respeito a este dia tão importante de solidariedade, pois vivem e/ou convivem cotidianamente com um preconceito no corpo, no sangue, na pele, na mente, na alma, na maioria das vezes, num movimento velado, silencioso e solitário.
Portanto, nossos esforços direcionam-se na viabilização de informações de forma clara, não preconceituosa e nem valorativa, onde possamos enfrentar os nossos próprios medos, valores, julgamentos, preconceitos, estigmas e rótulos. Nossa luta cotidiana, é a luta pelo combate ao preconceito e a discriminação, pela diferença, pela solidariedade, pela democracia, pela autonomia, pela liberdade, pela justiça, pela fraternidade, pela não-violência, pela cidadania, pela efetivação dos nossos direitos sociais, em sentido mais amplo, por direitos humanos!
SUELI GALHARDI é coordenadora da Comissão Municipal de Prevenção e Controle de DST/HIV/Aids em Londrina e presidente do Grupo de Mulheres Solidariedade

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