SOLIDARIEDADE - COMIDA PARA QUEM TEM FOME
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domingo, 04 de janeiro de 2004
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Eles chegam ao anoitecer. A maioria vem a pé. O grupo chama a atenção pelo visual radical: cabelos esquisitos, tatuagens, piercings. São os anarcopunks, ou punks anarquistas. Anarquistas porque pregam uma sociedade sem partidos, políticos nem governo; punks porque fazem parte de um movimento que demonstra revolta com a situação do país. Eles têm encontro marcado toda segunda-feira na Concha Acústica, no Centro de Londrina. O objetivo é mudar o mundo. A tática não poderia ser mais surpreendente nem mais lógica: de um velho Fiat Elba eles descem dois panelões enormes cheios de sopa, 250 pães e 12 litros de café com leite. Comida para quem tem fome.
Ismael Gonçalves de Melo, 47 anos, tem fome. São quase oito horas da noite e a última refeição que ele fez foi no dia anterior. A sopa é benvinda: ''Se não fosse eles, a gente ia dormir sem comer'', conta. Ismael vive na rua há 3 anos. Dorme no carrinho que ele usa para catar papel e lixo reciclável. Natural de Faxinal, conta que já teve emprego era maquinista mas depois da última internação por problemas mentais não conseguiu mais trabalho. Pai de 10 filhos e já avô, Ismael aguarda o nascimento de mais um bebê. ''O pouco dinheiro que eu consigo catando papel eu compro comida para minha mulher, que está grávida'', comenta. Quando não tem distribuição de sopa, o casal pede comida de porta em porta.
Quem coordena o mutirão da sopa não é um punk e sim um ex-dependente de drogas, Gervásio Eusébio Gonzales, 38 anos. ''Usei drogas durante nove anos e, quando me livrei do vício, comecei a aconselhar jovens. Eu sempre gostei de trabalhar com pessoas marginalizadas porque eu senti na pele o que é ser discriminado'', relata. A idéia de fazer a sopa surgiu quando a mãe de Gervásio abriu um restaurante no centro da cidade. ''Eu pedi para usar a estrutura do local e ela concordou. Resolvi procurar os punks e convidá-los pra ajudar. Eles aceitaram na hora'', lembra.
Um dos punks, Alan, 18 anos, também conhecido como Sid, diz que o convite chegou na hora certa. ''Nós somos rebeldes com causa. A gente queria fazer alguma coisa para mudar a sociedade e quando surgiu essa idéia da sopa, deu certo''. Ele explica que o visual é uma marca registrada. ''É para chocar mesmo, para verem que tem gente que não aceita tudo quietinho, e para ir contra esses modismos bobos'', opina. Alan faz supletivo e está procurando um emprego. Ele é voluntário no grupo desde o primeiro dia e diz que gosta do que faz: ''O sentimento que eu tenho é de estar fazendo alguma coisa de concreto para melhorar o mundo. É pouco mas pelo menos é alguma coisa''.
O grupo tem cerca de 40 pessoas. Eles se encontram no começo da tarde no restaurante e preparam a sopa juntos. Cada sopão custa cerca de R$ 150,00. Quando o projeto começou, em julho, era apenas um panelão. Agora são dois. As verduras são doadas por feirantes. Um vizinho doa um butijão de gás por mês. ''Toda semana eu saio correndo atrás do que falta. Só de carne são 15 quilos e a gente faz questão de usar tudo do bom e do melhor. A sopa fica uma delícia. Quando está tudo pronto, a gente senta e toma a sopa, juntos, antes de ir para a praça'', explica. Na hora de servir, pratos e talheres descartáveis e uma gentileza surpreendente: ''Nós não admitimos fila. Todo mundo senta e nós vamos até eles, um por um. O que sobra a gente embala para que eles levem para casa. A gente sabe que esta é a única refeição do dia para muitos que vão lá''.
Gervásio também promove eventos contra drogas. Ele começou em 2000, com a 1 Caminhada Cidade de Londrina Contra as Drogas. No ano seguinte fez a 1 Pedalada Contra as Drogas e não parou mais desde então. ''Se a minha vida mudou, a dessas pessoas também pode mudar'', acredita. Quem quiser ajudar o grupo com doações pode entrar em contato com o Gervásio pelos telefones (43) 9994-6796 ou (43) 3344-6732, ou também pode aparecer na Concha Acústica nas noites de segunda-feira.


