Tomamos conhecimento, através da imprensa, dos fatos lamentáveis ocorridos no Sudoeste do Paraná, quando do fechamento da Estrada do Colono. Os que vieram, na ânsia de mostrar serviço, investiram contra a população que defendia o sagrado direito do cidadão de ir e vir. Na verdade, é uma característica dos tempos atuais – os extremismos. Essa história de direito da pessoa é balela para os detentores do poder. Sempre houve essa arrogância. Atacam a pessoa como se estivessem numa guerra. É muito fácil lutar contra a população desarmada e sem treinamento militar. É só bater, ameaçar, humilhar. soldados, os que vieram, estavam cumprindo ordens. Essas ordens vieram de jogos de interesse, óbvio.
Sobram perguntas no ar: por que não fecham também as estradas que passam pelo meio da mata nos arredores das Cataratas do Iguaçu? A fumaça dos carros que lá trafegam é benéfica aos bichos? Será mais importante permitir a passagem pelas matas aos turistas que aos que lutam pelo seu ganha-pão? Os que usavam a Estrada do Colono em nada prejudicavam a floresta. Será que os turistas das Cataratas fazem o mesmo?
A Austrália, país muito preocupado com o meio ambiente, colocou cerca de mil quilômetros de tela ao longo de uma rodovia, a fim de evitar acidentes com animais. Nessa rodovia, há um limite rigoroso de velocidade. Será que não se poderia fazer o mesmo com os 17 quilômetros de mata da Estrada do Colono?
Vimos os fatos lamentáveis ocorridos na Penitenciária Central em Curitiba, quando um bando de detentos tomou o poder, com consequências funestas para a imagem da polícia. Que tal esse ‘‘comando’’ que atacou os defensores da Estrada do Colono lutar contra o tal de PCC e que tais? Lá poderiam mostrar o valor, a bravura, ou bravata, contra bandidos de verdade, não contra homens honestos, trabalhadores, gente honrada. Será mais importante manter intacta uma floresta sem que haja proveito para a humanidade, em detrimento de um povo que só quer o direito de ir e vir?
Os fatos ocorridos quando da tomada ‘‘heróica’’ da Estrada do Colono devem ser apurados. Para isso temos autoridades. Não nos cabe dizer o que devem ou não fazer. Elas sabem o que devem fazer. A população exige que tais fatos sejam esclarecidos, que sejam tomadas as providências cabíveis, quais sejam, impedir que, em nome de uma suposta proteção ambiental, cometam-se crimes contra pessoas, atingindo a integridade, tolhendo o direito sagrado de protestar.
É estranho que o Exército seja chamado para proteger matas e propriedades do presidente da República. Quando fatos relevantes aparecem e que mereceriam a intervenção federal, como o caso das invasões de terras produtivas por grupos do MST, tudo é encarado com tanta pachorra, tanta calma que nos parece haver excesso de equilíbrio por parte dos dirigentes deste País.
Na verdade, essa leniência não é senão conveniência. Imagine se o Exército for chamado para afastar sem-terra de fazenda. Será um ‘‘Deus nos acuda’’! Mas para afastar gente lutadora, pessoas que buscam honestamente seu ganha-pão, basta um telefonemazinho de algum interesseiro que imediatamente os ‘‘discípulos de Caxias’’ descem de metralhadora em punho, arrasam, destroem, ameaçam, prendem indiscriminadamente.
Os que detêm o poder podem levar a imagem de que estão protegendo uma floresta contra a invasão de bárbaros. É essa a imagem que projetam. Mas não esclarecem que são apenas 17 quilômetros a serem protegidos, bastando um pouco de boa vontade para se construírem processos e criarem meios de proteção, sem que haja necessidade de impedir a passagem e tumultuar a vida de quem quer apenas trabalhar. Foi lamentável o episódio. Foi exatamente o retrato de autoridades que temos: arbitrárias, inconsequentes, injustas.
Até agora os habitantes da região é que têm tomado cuidado e até mesmo protegido a floresta, pois têm consciência ecológica, impedindo que desordeiros provoquem danos ao meio ambiente local. Não há na região autoridade fiscalizadora e protetora da floresta. No entanto, é contra essa população consciente que as autoridades mandam seus asseclas, sob o argumento de que é para proteger a floresta.
Cruzar os braços e aceitar passivamente as imposições de grupos estranhos é que não vai acontecer. A luta continua e cada um saberá dar sua colaboração no momento oportuno.
O papel da Polícia Federal é caçar traficante, prender os ‘‘Lalaus’’ que existem em abundância pelo Brasil afora. Mas é mais fácil agredir pessoas pacatas, que não ofereçam resistência. Ir atrás de marginal dá trabalho. Perseguir cidadãos honestos é muito mais cômodo e aparece na mídia.
- ERNESTO FERREIRA DE OLIVEIRA, de Londrina, é professor universitário em Medianeira

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