Soja transgênica na contramão do mercado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de abril de 2003
Luiz Antônio Fayet 
O debate, as informações e desinformações sobre a liberação ou não do cultivo da soja transgênica Randup Ready (RR) não contribuíram em nada para que a população tivesse uma visão clara do assunto. Como tenho trabalhado intensamente sobre as questões do setor rural paranaense e brasileiro, olhando matricialmente sobre os seus múltiplos aspectos, imagino que possa dar uma contribuição neutra, uma posição não comprada por nenhuma das partes.
Em trabalhos desenvolvidos para a parceria Corecon/Crea e, também, para a Federação da Agricultura, entrei a fundo nas questões de exigências gerais dos consumidores e a necessidade da produção rastrear o sistema produtivo e garantir qualidade. Esta é uma visão econômica e objetiva: se quisermos vender e ganhar dinheiro, temos que saber o que o consumidor quer e se temos condições competitivas para atender suas demandas.
Ao longo de muitos anos a Embrapa e outras instituições de pesquisa têm trabalhado para o desenvolvimento de variedades de soja adaptadas aos diversos contextos ecológicos do País. O sucesso desse fantástico esforço é incontestável, hoje a produtividade no Brasil é de 2.870 kg/ha (Paraná 3.030) batendo a da Argentina 2.620 e a dos EUA 2.700, nossos concorrentes na disputa dos mercados internacionais.
Eles plantam a soja transgênica e nós não, afora alguns bolsões isolados e, no Rio Grande do Sul, que por culpa da irresponsabilidade do governo estadual anterior acabou gerando um problema que terá graves consequências.
Quanto aos custos de produção, consultando centenas de planilhas observamos que somente no item ''herbicidas'' há uma vantagem, que não tem maior significação, pois os demais custos são todos os mesmos. Na questão de custos o que influi efetivamente são os subsídios e benefícios que tanto a Argentina como principalmente os EUA oferecem. Lá não têm tributações escorchantes e, o carregamento de estoques é usualmente feito com juro zero ou negativo, enquanto aqui chega a 50% ao ano. Mesmo assim continuamos ganhando.
Mas a questão fundamental em que baseio minha posição, é a mercadológica. A soja transgênica tem perdido mercado para a soja convencional conforme os diversos estudos que tenho avaliado, inclusive o recentemente produzido pela Unicamp para o Ministério do Desenvolvimento e, também, para o de Ciência e Tecnologia, que poderá ser encontrado efetuando a seguinte busca: site www.mdci.gov.br ''Estudo da competitividade de cadeias integradas no Brasil: impactos das zonas de livre comércio''.
Para desespero de nossos concorrentes, a União Européia e Ásia, estão cada vez mais restritivos com relação ao uso da soja transgênica, conforme confirmou na semana passada na CNA o ministro europeu para assuntos relacionados à ''proteção sanitária, segurança alimentar e defesa do consumidor'', David Byrne.
Vale lembrar que com as crescentes exigências sobre rastreabilidade do processo de produção, as restrições atingirão os produtos derivados, especialmente as carnes e as gorduras e, a partir da próxima safra haverá a exigência de certificação crescente dos produtos, transgênicos ou não. Outra questão omitida pelos defensores da soja RR é de que a soja convencional vem recebendo ''prêmios'' na forma de sobrepreço de até 10 (dez) dólares por tonelada, representando mais de 5% sobre o valor de venda, o que para uma comoditie é espetacular.
LUIZ ANTÔNIO FAYET é economista, consultor de empresas, foi Deputado Federal, presidente do Badep e do Banco do Brasil


