A movimentação pré-eleitoral está ensejando na mídia uma multiplicação de sofismas, versões e meias verdades. Se os cidadãos as considerarem parâmetro regulador do processo que irá desaguar, apenas em outubro do próximo ano, estarão partilhando das seguintes posições: a passagem tranquila de Lula para o segundo turno; a impossibilidade de José Serra, ministro da Saúde, não decolar, caso seja o candidato tucano; a escalada sem retorno da governadora Roseana Sarney, como candidata do PFL; a derrocada de Ciro Gomes, para não se falar da chance igual a zero do governador Garotinho. Será que essas hipóteses são viáveis? Elas têm 50% de chances. Se política é uma caixinha de surpresas, campanha eleitoral é um imenso caixão de dúvidas.
No meio de tanta especulação, certas verdades podem ser recuperadas. Por exemplo: parcela ponderável do voto em Lula é a expressão de contrariedade ao Governo de Fernando Henrique. Não se trata, portanto, de um voto totalmente engajado. Significa que a candidatura governista poderá tomar corpo, caso o Governo melhore a sua ação, particularmente no campo social. Se Lula navega na confortável dianteira dos 32% de intenção de voto, é porque os candidatos ainda não subiram ao ringue. O atual ambiente social é mais favorável às oposições que o ambiente da última eleição presidencial. O desgaste do Governo, agora, é maior. Esse fator, porém, só será indicativo e decisivo no mês de setembro do próximo ano. Até lá, o Governo poderá sair do fundo do poço.
José Serra é considerado uma pessoa antipática. Mas é avaliado como o melhor ministro do Governo. Não sai, por enquanto, da faixa dos 4% de intenção de voto. Mas isso não quer dizer que não terá o índice de intenção de voto inflado, caso seja o candidato. É lógico aduzir que, diante de pessoas menos preparadas, o discurso de Serra levará vantagem. Diante de um eleitor mais exigente e racional, tudo indica que ele seria um candidato bastante viável. Dá para se perceber que o discurso substantivo, na próxima eleição, será mais aplaudido que a firula adjetiva.
Ciro Gomes não está descartado, como muitos apregoam. Haverá, sim, uma grande barreira a ultrapassar: o tempo de exposição na TV e no rádio. Sua visibilidade será menor. Mesmo assim, poderá tirar a desvantagem com um discurso competente. Basta não querer tomar o lugar radical da oposição, já ocupado por Lula. Garotinho é messiânico, diz-se. Encouraçado em seu evangelismo, não crescerá, segundo alguns. Depende. Se o contexto, no momento da disputa, apontar para a canibalização recíproca (com morte súbita) dos candidatos, poderá o governador carioca impressionar com seu discurso de elevação de valores e virtudes.
Roseana Sarney é apenas um balão inflado, que estourará ao primeiro vento forte? Não, necessariamente. Poderá ser isso, caso não aprimore o discurso. Mas a governadora não é uma boneca como alguns imaginam. Tem estofo, determinação e sangue político. Falta-lhe, sim, uma visão nacional, que pode ser preenchida com boa assessoria. Caso seja densamente cosmetizada pela exacerbação do marketing, coisa que, em um primeiro momento, até se faz necessária para ser conhecida, cairá na vala comum dos candidatos oportunistas. Doravante, ela vai precisar adensar o discurso. Tem a simpatia de parcela ponderável da população, que se mostra insatisfeita com a mesmice dos políticos. Trata-se de uma cara nova, mas com experiência. Será difícil afastá-la do ringue.
Itamar Franco, esse sim, é sinônimo de imprevisibilidade. Qualquer indicação sobre seus passos não passará de especulação. O que se pode, porém, inferir é sobre seu rumo mais provável. Se o faro de sobrevivência estiver aguçado, Itamar escolherá a alternativa menos arriscada, a candidatura ao Senado, optando, a seguir, pela alternativa de reeleição. Será pouco provável que se arrisque numa aventura presidencial. O barulho que faz tem objetivo: embaralhar o PMDB, fustigando-o para tentar desmoralizar a direção do partido, no que conta com o apoio de Quércia e Roberto Requião, ex-inimigos, agora juntos, ou não tão juntos, na medida em que o senador do Paraná tem declarado apoio a Lula.
Tasso Jereissati teria chances? Ora, com mídia pesada, discurso denso, sinalização de esperança e avanço, incorporação dos valores da moderação, da experiência, da autoridade e de assepsia política, qualquer candidato com ficha limpa e passado decente poderá subir nas pesquisas. O que a maioria do povo não quer é candidato radical, folclórico, intempestivo, despreparado, inexperiente e imprevisível. Dentro deste cenário, dá para se aferir o que é verdade, alternativa viável e firulação.


- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor universitário em São Paulo
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