A greve dos coletadores de lixo reciclável, em Londrina, desperta a atenção para esses sacrificados trabalhadores, que são vistos subindo ruas íngremes com seus pesados e improvisados carrinhos. Adolescentes e crianças também participam desse árduo trabalho, levantando e puxando cargas que vão além de sua resistência. ''Sueli tem o rosto machucado pelas horas diárias caminhando sob o sol, e as mãos calejadas'', escreve o repórter da Folha, em publicação de ontem deste Jornal. Ela é apenas uma das muitas mulheres, assim como homens e crianças, afeitos à tarefa diária de recolher detritos, que são vendidos a baixo preço. Já funciona em Londrina um sistema cooperativo, mas a renda é baixa. Um exemplo citado, do catador Aroldo Costa, é que ele trabalha 160 horas no mês para ganhar R$ 123, ou 77 centavos a hora. O pouco dinheiro que esses trabalhadores arrecadam não dá para um sustento digno da família. Num país onde escasseiam os empregos, há que dar assistência aos que se dedicam à luta pela vida, como esses garimpeiros do lixo e que não se deixam induzir para práticas delituosas, tão condenadas pela população. Se os empresários adquirentes do dejeto reciclável desejam mais segurança, devem contemplar com melhor paga estes fornecedores de matéria-prima. Não é fora de propósito sugerir que, na renovação do contrato de concessão da coleta de lixo urbano, seja estabelecido pelo poder concedente que a empresa concessionária seja a compradora desses resíduos especiais recolhidos individualmente pelos coletadores. E que, por lei reguladora, se estabeleça um preço mínimo, de forma a melhorar-lhes o ganho. Tão grande é o número desses obreiros e tão volumosa a carga diária recolhida por eles, que a questão merece um olhar das autoridades. E, por via da concessionária, poderia ser criado um projeto de financiamento de veículos motorizados, eventualmente pelo mesmo sistema cooperativo, que substituíssem os precários carrinhos. Porque já não se concebe o transporte em carroças puxadas por velhos, sedentos e mal-alimentados cavalos (e aí entra também a questão da proteção animal) e das pessoas idosas, adolescentes e crianças arrastando pesados e mal-ajambrados carrinhos. A luta do momento é mais modesta e visa apenas preços mais justos pela mercadoria recolhida, porque como diz a reportagem deste Jornal esses catadores estão ''driblando a miséria''. Uma nação que se proclama cristã não pode permitir que seus patrícios apenas sobrevivam, mas que vivam.

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