Sociólogo repensa o tempo
José Suassuna‘‘O problema é que em toda vida, na família e na escola, a pessoa é encaminhada no sentido de viver apenas para o trabalho’’Outras consequências da pós-industrialização são a transformação do trabalho físico em intelectual. ‘‘Daqui a alguns anos, teremos uma enorme cabeça e um pequeno corpo’’, brinca. A IBM, segundo ele, já tem, hoje, 10 mil funcionários, dos quais apenas 400 são operários. Finalmente, consequência natural desta redução do trabalho é o incremento do tempo livre. Para mostrar essa realidade, ele cita como exemplo um jovem de 20 anos com expectativa de viver mais 60 anos, o correspondente a 530 mil horas. Se começar a trabalhar já e até 60 anos, ele terá 40 anos de trabalho pela frente. Trabalhará em média 1,7 mil horas por ano, ou 2 mil se for um executivo, resultando em 80 mil horas de trabalho em sua vida.
‘‘Isto se ele não for um napolitano ou um baiano, mas da Suíça ou de Curitiba’’, volta a brincar, pendendo para as culturas que dão prioridade ao ócio. Na conta de De Masi, sobram ainda 450 mil horas para o que muito trabalha. Destas, ele gastará cerca de 220 mil horas dormindo e comendo e terá ainda 230 mil horas para atividades livres.
‘‘O problema é que em toda vida, na família e na escola, a pessoa é encaminhada no sentido de viver apenas aquelas 80 mil horas de trabalho. Os próprios empresários pedem às escolas que só se interessem por estas 80 mil horas, que representam só 1/7 da vida. É um absurdo’’, condena.
A mudança de pensamento sobre o mundo do trabalho, segundo De Masi, poderia ser sentida inclusive durante sua palestra, onde as pessoas estavam ao mesmo tempo trabalhando, divertindo-se, estudando e passando tempo livre. ‘‘As regras tayloristas não servem mais para os dias de hoje’’, alerta o sociólogo aos renitentes. (M.G.)

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