Sociologias: do Planalto à caatinga - Gaudêncio Torquato
Sociologias: do Planalto à caatinga
Gaudêncio Torquato
A sociologia do Planalto é climatizada pelo ar condicionado da burocracia instalada na arquitetura de cimento e aço de Niemeyer. A sociologia da caatinga é dura como a vida severina cantada pelo maior poeta vivo do Brasil, João Cabral de Melo Neto: Aquela vida que é menos vivida que defendida e é ainda mais severina para o homem que retira. A distância entre as duas sociologias é a mesma entre o Brasil fictício e o Brasil real. Em qualquer dia de qualquer mês, Brasília é uma festa. Está cercada de poder por todos os lados. No Planalto, até protesto é motivo de festa. Quem participa de marcha, passeata ou caminhonata sabe muito bem que está desfrutando momentos de lazer. A anatomia brasiliense, enfeitada pelas cúpulas da Câmara e do Senado, dos palácios do Planalto e da Alvorada, da Esplanada dos Ministérios, assemelha-se a uma antecâmara do Olimpo.
Talvez seja por isso que os habitantes dos palácios, a partir do principal deles, o sociólogo Fernando Henrique, não gostem de ver o fogo quente da planície, esse que consome as energias das filas de desempregados, dos pequenos produtores rurais, dos contingentes de miseráveis que se aboletam nas periferias urbanas, dos milhares de humildes trabalhadores que correm, apressados, para tomar ônibus e metrôs locupletados, nas primeiras horas do dia.
Talvez seja por isso que as decisões tomadas pelos deuses do Olimpo o presidente e seus ministros não estejam servindo para aliviar as dores do povo mais sofrido. Cada fala do presidente da República, como a do último domingo, é um hino de autolouvor. O Brasil até parece uma ilha de prosperidade em um mundo cheio de tormentas. O presidente poderia estar querendo fazer a comparação com a Turquia devastada pelo terremoto.
Fernando Henrique anuncia com uma ponta de alegria que o desemprego parou de crescer. Deveria estar anunciando o fim do desemprego, a volta do crescimento, o resgate da produção. Ou será que cinco anos de administração não são suficientes para exibir resultados mais alentadores? Os ares de Brasília, porém, turvam a vista. O presidente continua a atribuir ao Congresso a fatura pela crise. Ora, o Congresso deu ao País as reformas econômicas, que permitiram a maior privatização da história mundial, a reforma administrativa, a reforma previdenciária possível, só faltando, para concluir o ajuste, aprovar a reforma tributária, a lei de responsabilidade fiscal e as três leis complementares da Previdência.
O que falta ao País não é decisão do Congresso. Falta governo, faltam operadores. Dos ministros, apenas dois ou três vão à luta. A política econômica é a lição de casa imposta pelo FMI. A administração federal não tem criatividade. Carece de oxigênio. E o presidente começa a despachar muito no Palácio da Alvorada, sinal conhecido de fastio de poder.
O guarda-chuva de articuladores políticos que ele criou, comandado por Aloysio Nunes Ferreira, mostra-se impotente para abrir espaços de apoio. As bases políticas situacionistas patinam na mesmice dos compromissos não cumpridos. O próprio presidente brinca com a situação, ao dizer que, quanto mais velho, mais esquecido fica. Será muito difícil recuperar o elã de um governo sem eixo, sem grandes estratégias, sem comunicação e reativo. Só age em função de circunstâncias.
Aliás, nesse campo, o governo pratica um antimarketing. Fez muito barulho na resposta à Marcha dos 100 Mil, dando, assim, mais força e visibilidade ao movimento. O único marketing que, até agora, deu certo, é a martelada insistente do Executivo sobre o Legislativo, exigindo deste as reformas. Se continuar a praticar harakiri político, o Executivo acabará fazendo o jogo das oposições e ressuscitar o velho PT sem rumos. Seria mais útil a Fernando Henrique trocar a sociologia weberiana pela rústica cantoria cabralina (de João Cabral de Melo Neto). Poderia se sensibilizar com o coro dos desprotegidos: O dia de hoje está difícil, não sei onde vamos parar. Deviam dar um aumento, ao menos aos deste setor de cá. As avenidas do centro são melhores, mas são para os protegidos: há sempre menos trabalho e gorjetas pelo serviço; e é mais numeroso o pessoal (toma mais tempo enterrar os ricos).
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político-eleitoral
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