SOCIEDADE TECNOLÓGICA - 'Não preciso saber tudo'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Célia Polesel<br>Reportagem Local 
Marcos Ferreira é doutor em psicologia social e presidente da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia. Ele fala à FOLHA sobre a necessidade de encontrar caminhos para lidar com a grande quantidade de informação que chega todos os dias às pessoas.
Excesso de informação causa estresse?
A discussão da opressão da informação é maior do que a quantidade de informação. Nossa sociedade vive hoje pressionada pela idéia de que você precisa ter um aparelho celular, computador, mas ele precisa estar ligado na internet. Seu celular tem de receber e-mail? Sua televisão precisa ter 200 canais mesmo que não se consiga assisti-los? Existe uma pressão comercial que já exerce opressão a partir do próprio aparato tecnológico e não só da quantidade de informação que eles carregam. As pessoas acabam se sentido sempre defasadas, em dívida com esse aparato tecnológico. Você acaba de comprar um computador e ele já está velho, tem de pensar em atualizá-lo.
Só que não dá para viver sem tecnologia...
Quando faço crítica ao aparato tecnológico não estou dizendo: vamos pensar em viver sem ele. Estou dizendo: vamos quebrar esse processo de naturalização de que ele é alvo. Porque ele está inserido em nosso cotidiano e nós não somos capazes de desenvolver uma perspectiva histórica para perceber que foi inserido sem a nossa autorização, sem perguntarem para nós e que ele gera demandas que são descabidas.
Mas esta exigência é do mercado...
O mercado é um meio de trocas, então devíamos usar o mercado, mas imediatamente posso concluir que é o mercado que nos usa. Ele é um espaço de trocas entre seres humanos, mas na hora que começo a achar que tenho de comprar, estou sendo usado.
Como lidar com o excesso de informação?
Se a gente não aprender a usar, processar, recusar e ampliar a informação, nos tornamos incapazes de reconhecer o que é verdade, o que é ficção, o que é importante. Isso é loucura. Para muitos, o importante é responder aos e-mails, não importa se refleti sobre o que estou respondendo. O e-mail é uma invasão absurda nas nossas vidas, tem gente que acorda no meio da noite pensando nos e-mails que está recebendo e vai para o computador limpar a caixa de entrada. E muitas mensagens, talvez 80%, nem precisasse receber, mas ele vai lá mata os 80% deixa os 20% que são importantes e vai dormir tranquilo porque agora há poucos e-mails.
Mas é preciso estar informado até para ser aceito pelo grupo...
As pessoas com quem convivemos nos obrigam por diversos canais e formas e vão nos dizendo a expectativa delas em relação a nós. Esperamos que você saiba tanta coisa ou que ganhe tanto dinheiro ou compre determinados aparatos tecnológicos. Significa que meu grupo tem uma referência que eu assumo como minha. Não só para eles gostarem de mim. Para eu gostar de mim tenho de ter os aparatos tecnológicos, preciso ter uma quantidade de informação. As pessoas querem saber os que os outros leram, viram, porque quando você diz que sabe você confirma para o outro que aquilo que ele sabe é de fato importante.
Como é que a gente sai dessa opressão?
Não existe opressão na quantidade da informação, existe opressão na expectativa de que você seja capaz de absorver aquela grande quantidade de informação. Você começa a se livrar da opressão quando a quantidade deixa de interessar e a capacidade de digerir essas informações passa a ser valorizada. Há dois caminhos para se resolver isso: investir na capacidade de processar, desenvolvendo o método de olhar as coisas, saber o que é importante, reconhecer fontes; e fortalecer relações pessoais. Como dizia Milton Santos: não preciso saber tudo.


