A cena se repete: jovens e crianças chegam ao consultório da psicóloga Elsie Silva sem saber a origem da dor de cabeça, insônia, irritabilidade. Quando se investigam as causas, o diagnóstico aponta o medo excessivo. ''Tive casos de jovens cujos pais não os deixam sair a pé, dirigir o carro e nem andar de ônibus. O que sobra para esse adolescente?'', indaga Elsie. Nas palavras dela, é preciso, sim, tratar desses problemas, mas mostrando o real. ''Esse trabalho tem de ser feito o quanto antes, pois estamos com uma nova geração sem referência''. Nesta entrevista, Elsie fala de violência, fobias, tratamentos e soluções.

Como a violência tem influenciado a vida das pessoas?
De forma muito negativa. O medo tem se espalhado. As famílias têm preferido morar em lugares mais seguros, seja em condomínios ou prédios. O medo, em si, deixa a população mais cautelosa. Hoje, contudo, o que constato nas pessoas é o medo excessivo, que gera um estresse traumático, uma desconfiança antecipada. Os pais têm trancado seus filhos em casa, que muitas vezes ficam sem orientação, expostos a uma avalanche de cenas de violência, seja em jogos ou na televisão. Perderam-se os valores, as referências, nesse momento que considero como o mais complicado que já vivemos.

E essa fobia à violência já se estende às crianças?
Sem dúvidas. Em meu consultório, atendo muitas crianças que vêm com quadros de depressão, fadiga, dor de cabeça, insônia, irritabilidade e muitas vezes o pano de fundo para tudo isso é o medo excessivo.

Quais as principais consequências, no dia-a-dia dessas crianças?
Dentro de casa, elas não vão nem na cozinha sozinhas e, na hora de dormir, pedem para dormir na cama dos pais. Para aquelas que carregam esse medo excessivo por conta de uma experiência ante a violência, a situação se agrava: as crianças generalizam a preocupação, ou seja, têm medo de que aconteça algo com todos seus entes queridos. Há a perda de concentração na escola e, principalmente, da espontaneidade.

Esse ''enjaulamento'' das ''crianças de condomínio'' traz algo de positivo?
Sim. A criança de condomínio traz, a princípio, o conforto e a segurança aos pais. Contudo, quando essa criança vira adolescente e tem de enfrentar o mundo, estudar fora, não há uma preparação para se encarar tudo o que o mundo oferece e apresenta.

E como trabalhar para a criança não se fechar em sua redoma?
Mostrando, desde já, o que é o real, o que é o mundo, com quem ela pode fazer amizade, ter vida em comunidade, participar de igrejas, de reuniões de clubes, de casas de amigos. Por outro lado, delinear as situações em que a prevenção é necessária, até quais horários e momentos a criança pode se expor. Esse trabalho tem de ser feito o quanto antes.

Essa geração estaria prestes a estabelecer um novo modelo de sociedade, ainda mais violento?
Não sou muito otimista. Com essa lógica do ''salve-se quem puder'' temos exemplos de perda de empatia, da alteridade (se colocar no lugar do outro), gerando o egoísmo. Acredito que a violência só diminua, de fato, se for feito um trabalho integrado, conjugando todas as esferas da sociedade. Aí incluo a escola, os governos e as famílias. Acredito muito numa estruturação de vida diferente daquela dos dias atuais.

Estruturação em que sentido?
Com escola em período integral e incutindo, nas crianças, a mesma consciência com a qual atualmente é apresentado o tema ''meio ambiente''. A mídia tem papel fundamental nesse sentido. Desenvolver a sensibilidade das crianças e o espírito de solidariedade e trabalhar de forma a tirar uma parcela desse medo seriam boas idéias. Seria um trabalho de formiguinha, mas acredito bastante que o ser humano é modificável.

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