''Sociedade precisa cuidar dos idosos'' (Entrevista)
Edna Mendes
De Cornélio Procópio
Por que só agora a Igreja Católica passou a se preocupar com as questões relacionadas aos idosos?
ArnsOs movimentos ligados à Terceira Idade dentro da sociedade são recentes porque, no passado, a questão do idoso sempre foi tratada de maneira secundária. Era pequeno o número de idosos entre a população em geral. A média de idade há 20 ou 30 anos, era de 40, 50 anos. Hoje, chegamos a 60, 65 e mesmo 75 anos, conforme o estado e a saúde das pessoas.
FolhaEntão precisou a população envelhecer para que a sociedade percebesse que tinha mais um problema social?
ArnsÉ verdade. Recentemente tivemos uma reunião com o presidente Fernando Henrique Cardoso, quando entregamos um pedido de que o Brasil cuide das pessoas idosas. Mas que cuide com dignidade, para que os idosos se sintam úteis e possam prestar auxílio à Nação.
FolhaE o que FHC prometeu fazer?
ArnsA situação da terceira idade sempre foi preocupante e hoje em dia é mais preocupante ainda. O velho vive do isolamento, da marginalização e muitas vezes também da necessidade de ter melhores condições de vida. Está na hora das famílias acordarem e a sociedade prestar o devido reconhecimento àqueles que construíram a sociedade que temos. Recentemente, o papa João Paulo II me escreveu uma carta muito linda, onde ele pede que as pessoas do mundo inteiro se preparem para a terceira idade.
FolhaMas o que o governo vai fazer para melhorar as condições de vida dos idosos?
ArnsA sociedade tem que se preparar para o crescimento do número de idosos no Brasil. Agora são 7 milhões, e em 25 anos pode ser que sejam 20 milhões. Então, como é que aqueles que trabalham podem sustentar esses idosos? Nós precisamos preparar o mundo para receber os idosos. Precisamos nos ocupar dos idosos de uma maneira bem concreta e eficiente para que não haja uma surpresa para o Brasil e quem sabe até uma vergonha para nós por termos marginalizado aqueles que construíram nossa vida, nossa civilização.
FolhaQue avaliação o senhor faz do governo de FHC?
ArnsEu trabalhei com FHC durante 15 anos, quando ele cursou a Universidade de São Paulo e foi perseguido pela ditadura. Eu o ajudei a tirar da tortura e da cadeia diversas pessoas e assim ficamos amigos para toda a vida. Há pouco tempo eu perguntei a ele o motivo pelo qual ele não põe em execução todas as coisas que nós combinamos naquela época.
FolhaE o que ele disse...
Arns... Que um dos principais culpados disso são os meios de comunicação que sempre publicam as coisas de maneira distorcida. A segunda coisa que ele me disse é que os partidos políticos estão muito mal formados e muito inseguros e que cada pessoa pode afastar-se do partido de qualquer forma. Ele afirmou que precisa haver no Brasil uma reforma política e uma reforma tributária. Eu acredito que o futuro do Brasil virá muito mais depressa do que nós imaginamos desde que o povo colabore.
FolhaO que está faltando no governo de FHC?
ArnsEu acho que o presidente ainda não teve a oportunidade de colocar em prática tudo que planeja. Ele também precisa do apoio do PFL e de outros partidos para realizar aquilo que ele programou enquanto ele trabalhava conosco em São Paulo. FHC é um homem preparado, ele só precisa ter os instrumentos para poder realizar o seu plano.
FolhaE essa explosão de CPIs do Narcotráfico e do Judiciário?
ArnsUma revolução começa e a gente nunca sabe quando ela acaba porque a revolução sempre traz consequências, como trouxe dessa vez. Como exemplo temos a violência, a má distribuição de renda e de salários. A revolução não nos preparou para a verdadeira democracia; pelo contrário, tirou dos brasileiros o interesse pela verdadeira política e pela honestidade dos políticos na vida e por isso estamos assistindo a essa ruína moral de políticos, juízes e empresários.
FolhaE esse aumento da pobreza no Brasil preocupa a Igreja?
ArnsA pobreza no Brasil pode ser vencida em dois ou três anos.
FolhaDe que maneira?
ArnsÉ só preciso olhar quanta riqueza há debaixo da terra, quanta terra boa temos, nosso clima é bom. Agora é distribuir a terra e fazer com que todos trabalhem. Recentemente, participei de uma reunião inter-religiosa internacional, quando os especialistas presentes garantiram que nesse momento já há comida suficiente para a população do mundo inteiro. Agora é só saber distribuí-la e fazer com que ela chegue à mesa do pobre.
FolhaComo o senhor vê a escalada acentuada da violência no País?
ArnsEnquanto não houver salário e emprego para todos e mais consideração para a distribuição de renda, nós nunca vamos ter paz no Brasil. A violência é certamente uma agravação da falta de salário e também da falta de entendimento entre as pessoas.
FolhaPor outro lado, essa onda de violência também pode ser sintoma de que os preceitos pregados pela Igreja fracassaram ou que a doutrina católica tem uma influência menor do que se imagina?
ArnsNão, a Igreja não fracassou. A questão dos direitos humanos sempre progrediu dentro da Igreja e agora esse mesmo progresso precisa acontecer na sociedade brasileira.
FolhaPor onde deve começar o resgate dos direitos humanos?
ArnsO resgate dos direitos humanos tem de começar pelo conhecimento. A maioria do povo não sabe quais são os 30 artigos dos direitos humanos. Nunca ouviu falar disso. Nós imprimimos 1,8 milhão de exemplares sobre direitos humanos, mas isso ainda é muito pouco para os 160 milhões de brasileiros. Os meios de comunicação deveriam se empenhar mais em divulgar diariamente artigos sobre direitos humanos
FolhaO fim do milênio está fazendo as pessoas se preocuparem mais com a espiritualidade?
ArnsÉ verdade. Em todas as ocasiões em que se decide a história da humanidade, como nas guerras, nas crises, nas doenças ou em qualquer dificuldade, o povo se lembra que sem Deus não há solução e fica mais religioso. E esse movimento religioso da busca da espiritualidade está acontecendo no mundo inteiro. Este é o momento da religião, da espiritualidade.
FolhaO avanço dos evangélicos preocupa a Igreja Católica?
ArnsO avanço das pessoas que anunciam Cristo nunca nos preocupa. Uma vez Cristo foi questionado pelos discípulos porque havia pessoas fazendo milagres em seu nome. Jesus disse que quem não é contra nós é em nosso favor. Cristo não quer perseguição e não quer briga entre os cristãos. Por isso nós não vamos promover essa briga.
FolhaO senhor acha que as igrejas pentecostais vão continuar crescendo no próximo milênio?
ArnsIsso vai depender da evolução do País e das condições de vida da população. Por enquanto, essas igrejas estão numa fase boa, mas no futuro pode ser diferente.
FolhaA atuação do padre Marcelo Rossi não seria o contra-ataque para esse crescimento dos evangélicos?
ArnsO padre Marcelo está obedecendo ao bispo dele, que é um homem muito sério, meu sucessor. Enquanto ele estiver unido ao bispo e fizer coisas para introduzir os jovens no Evangelho e não apenas para certos movimentos e numa certa distração, nós o apoiamos. Marcelo Rossi é um homem sério.
FolhaO fenômemo Marcelo Rossi é a aproximação ideal entre as massas e a Igreja Católica?
ArnsEu acredito que sim, contanto que ele sempre fique dentro da linha da Igreja. O importante é ele atrair os jovens para a Igreja.
FolhaMas isso basta?
ArnsPrimeiro ele atrai os jovens e depois faz com que eles pratiquem a religião e o Evangelho na sua totalidade e não apenas nos movimentos.
FolhaEntão a Igreja Católica precisa ousar para recuperar os fiéis?
ArnsO trabalho do padre Marcelo é muito sério, feito em comunhão com os bispos e a Igreja e com todas as pessoas de bem. Graças a ele a juventude está se aproximando mais da Igreja e quer participar dos movimentos, sobretudo os movimentos em favor das crianças.
FolhaMas a Renovação Carismática também pode alienar ou pelo menos atrair as pessoas por outros motivos que não sejam exatamente os preceitos da Igreja?
ArnsEsse movimento pode ser alienante num primeiro momento, mas daqui a pouco acho que ele vai concentrar as pessoas em algo mais essencial, que é o verdadeiro sentido da vida.
FolhaNem sempre os carismáticos foram bem vistos pela própria Igreja Católica....
ArnsOs carismáticos evoluíram muito. Pelo menos em São Paulo. O movimento sempre acatou nossas orientações para o trabalho. Os carismáticos colaboram em todas as comunidades e sobretudo nos movimentos relacionados às pessoas carentes e das comunidades de base. Isso é muito importante para a Igreja.
FolhaO que a Igreja Católica está fazendo para arrebanhar os que se dizem católicos não praticantes?
ArnsOs que não são praticantes vão acordar um dia. Sobretudo quando acontecer um desastre ou uma dificuldade especial na vida, eles se lembram de Deus. A Igreja nunca vai desistir de tentar conscientizá-los. Temos que ter boa vontade sempre. Quem tiver isso vai encontrar a Deus.
FolhaA televisão e Internet afastaram o jovem da Igreja?
ArnsPor enquanto, a televisão não fez grande coisa em favor do jovem. Mas aos poucos ela está fazendo o jovem se interessar por religião, algo pelo qual eles já não se interessavam mais. Temos agora muito mais TVs e emissoras de rádio católicas do que tivemos em qualquer tempo da história do Brasil. Isso é um avanço.
FolhaEm seus contatos com o papa João Paulo II ele menciona vir novamente ao Brasil?
ArnsO papa quer muito vir ao Brasil, mas não no ano que vem, que é o Ano Santo e ele quer estar à disposição de todos os peregrinos que forem até Roma. Ele virá ao Brasil no ano seguinte, em 2001.
FolhaNo ano que vem os bispos do mundo inteiro terão um encontro no Vaticano. O que será discutido?
ArnsVamos discutir três tópicos. O primeiro é como darmos um novo ânimo à vida, já que há um desânimo geral. O segundo é usar os meios à disposição, que são usados negativamente, para reverter essa situação. O terceiro é dar um conteúdo à vida a partir do Evangelho e da existência do cristianismo.Arcebispo emérito de São Paulo agora se dedica à cruzada para evitar futura marginalização dos integrantes da terceira idade no Brasil
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