Sociedade civil internacional
Fernando José Dias da Silva
Agora, temos a reunião em Davos, na Suíça. É o encontro anual dos ricos, dos muito ricos que fazem essa rodada para reclamar da vida. É um ambiente simpático, a cidadezinha é linda e eles aproveitam para lamentar porque não ganharam mais dinheiro no ano passado e como podem ganhar mais dinheiro no ano que começa.
Alguns países classe média e até alguns pobres aparecem por lá com os representantes de suas finanças só para saber das coisas, avaliar o humor dos super-ricos, fazer uma atualização.
No ano passado, as coisas foram meio tenebrosas porque vários países estavam entrando em crises financeiras. Agora o ambiente deve ser de festa: as perspectivas estão boas para essa turma. Com um único senão, aquele determinado grupo que não quer mais aceitar a globalização como uma fatalidade, que não quer mais deixar o mercado decidir no lugar daqueles que foram eleitos e não aceita que o mundo se transforme em mercadorias.
Esse grupo esteve presente em Seattle e bagunçou a festa da Organização Mundial do Comércio (OMC) impedindo que fosse dada a partida para o levantamento de todas as barreiras comerciais entre países.
Os otimistas, que fazem oposição ao grupo que se reúne anualmente em Davos, comemoraram. Chegam a dizer que o que aconteceu em Seattle pode ser o embrião da sociedade civil internacional reunindo dezenas de organizações não-governamentais (ONGs), coletivos de associações, sindicatos e até países.
E é claro que Seattle será discutido em Davos. Os pessimistas da globalização consideram que na última década foi colocada em prática, de forma muito discreta, uma espécie de Executivo planetário que na realidade é quem governa o mundo.
Indiferente ao debate democrático e sem ser submetido ao voto universal, esse poder informal pilota de fato a Terra e decide o destino de seus habitantes. Isso sem nenhum contrapoder que corrija, emenda ou recuse as decisões do Executivo planetário. É que os reguladores e fiscalizadores tradicionais – parlamentos, partidos, mídias – são locais.
Então os que rechaçam a globalização da forma que ela está colocada acham que Seattle foi a primeira pedra de um novo espaço de representação mundial, onde a sociedade civil planetária deverá ocupar um lugar central para reclamar uma nova geração de direitos, dessa vez coletivos: direito à paz, direito a uma natureza preservada, direito à cidade, direito à informação, direito à infância, direito ao desenvolvimento dos povos.
Porque, segundo eles, é inconcebível que a sociedade civil não esteja sendo convocada para discutir as próximas grandes negociações mundiais quando serão tratados problemas ligados ao meio ambiente, à saúde, à supremacia financeira, ao humanitarismo, à diversidade cultural, às manipulações genéticas etc.
A oposição à globalização considera que não é mais possível deixar de interferir em um mundo, onde 1 bilhão de habitantes vive na prosperidade enquanto outro bilhão de habitantes sobrevive na miséria mais atroz e que 4 bilhões têm renda apenas para o mínimo vital.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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