Aliás, não só para ele. Sobrou para toda essa legião de palestrantes, ‘‘consultores’’ e escritores que ganham dinheiro fácil explorando esse verdadeiro flagelo nacional que é a onda de palestras e livros de motivação pessoal e auto ajuda.
O desempenho pífio da delegação brasileira em Sydney serve, ao menos, para demonstrar que no esporte, assim como na vida, não existe mágica, nem milagres. Que medalhas olímpicas, assim como outras vitórias importantes da vida, não se conquistam apenas com a força do pensamento positivo. E que os truques que funcionam tão bem para encantar platéias em palestras animadas revelam-se absolutamente inúteis na ‘‘vida real’’.
Na primeira semana de agosto, pouco antes de a delegação brasileira iniciar a viagem para a Austrália, Roberto Shinyashiki (um consagrado autor brasileiro de livros de auto-ajuda e motivação pessoal) deu uma palestra para os atletas, por sugestão do COB. O tema foi ‘‘Transformando o Sonho em Medalhas’’. No final, ele pediu que os atletas andassem sobre brasas (um truque perfeitamente explicado pela ciência, que muitos palestrantes utilizam para impressionar a platéia e conquistar a confiança do público). E os atletas andaram sobre brasas. O objetivo da experiência, segundo Shinyashiki, era fazer com que os atletas passassem a ‘‘acreditar que o improvável pode acontecer’’. O resto da história você conhece bem. Deu na televisão, nos jornais e na Internet.
Foi um festival de fracassos improváveis motivados por desempenhos extremamente inferiores às expectativas. E não se trata de expectativas de torcedores desinformados ou excessivamente otimistas. Estamos falando de possibilidades reais de ouro que se transformaram em prata, de prata que viraram bronze e de bronze que se desfizeram em pura fumaça. (A única exceção me parece ter sido os ‘‘rapazes de Presidente Prudente’’, que conquistaram uma prata quando eram cotados, com muito otimismo, para o bronze).
O Dr. Shinyashiki deu entrevistas afirmando que os atletas brasileiros se superaram e que cada um deles conquistou sua própria vitória pessoal. Mas eu não concordo. Se um atleta está no grupo de elite da sua modalidade e é cotado para ganhar uma medalha (caso, por exemplo, dos três maratonistas) eu não acredito que eles considerem o desempenho dele (duas desistências e um 75º lugar) como uma superação ou uma vitória pessoal. Nem eles, nem seus técnicos, nem os jornalistas, nem ninguém.
O doutor disse que, no caso do vôlei, o problema é que os argentinos (que desclassificaram o Brasil, num jogo em que o levantador Maurício admitiu que o time travou e tremeu) ‘‘estiveram perfeitos. Eles mapearam todas as nossas possibilidades de ataque e se prepararam.’’ Ah, bom. Quer dizer então que o negócio não é ‘‘acreditar que o improvável pode acontecer’’. Continua valendo a velha tese de que o melhor mesmo é estar preparado (bem preparado) para o ‘‘provável’’.
Continua valendo a teoria de que ‘‘a melhor preparação psicológica que um atleta pode receber são as condições físicas (alimentação, moradia digna, acompanhamento médico e odontológico) para enfrentar o treinamento. Muito treinamento’’. A certeza de estar bem preparado para um desafio é muito mais eficiente do que qualquer recurso mágico transcendental.
As palestras e os livros de auto-ajuda e motivação pessoal já causaram muitos danos à muita gente. As pessoas não percebem, porque estão motivadas para encarar a própria derrota como uma vitória pessoal.
Está na hora de ‘‘cairmos na realidade’’: os nossos problemas precisam ser identificados, enfrentados e superados (e não apenas vistos com outros olhos, como se, na verdade, não fossem problemas). Não devemos ficar enganando a nós mesmos com frases de efeito e mentiras convincentes. Se eu sou insignificante, não adianta ir pra frente do espelho e ficar dizendo ‘‘eu sou especial!!!’’
Eu tenho é que perceber a realidade e aceitar os sacrifícios que são necessários para mudar essa situação. Todas as conquistas, no esporte e na vida, são resultados de trabalho, organização, disciplina e sacrifícios. Frases de efeito não funcionam quando o jogo é ‘‘à vera’’
- ÊNIO PADILHA é escritor e especialista em treinamento empresarial em Balneário Camboriú
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