Sobreviver é preciso
A velha Europa busca desesperadamente se reinventar para sobreviver sem o seu antigo aliado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
A velha Europa busca desesperadamente se reinventar para sobreviver sem o seu antigo aliado
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
Meu avô, um sábio português quase analfabeto, me ensinava que não existem soluções fáceis para problemas complexos nem receitas prontas para grandes diagnósticos. Trago até hoje essa sabedoria. A simplicidade não é simplismo e colocados que somos hoje, perante desafios inimagináveis há uma década, devemos reagir com inteligência, perspicácia e humildade. E principalmente não desprezar nenhum elemento necessário à solução do problema.
Ora, o calcanhar de Aquiles do atual momento na geopolítica mundial, atende pelo nome de Trump. Não cabem eufemismos quando se aborda esse nome e as suas implicações. Quem o escutou, naquilo que ele chamou de “avaliação do primeiro ano de governo” ou em Davos, não pode ter dúvidas. É mentiroso, megalomaníaco, xenófobo e revela-se um tremendo de um elemento desestabilizador da ordem mundial. Ninguém aposta um dólar na sua capacidade de executar qualquer uma das loucuras que mencionou. Poucos o poderão parar. A velha Europa busca desesperadamente se reinventar para sobreviver sem o seu antigo aliado. Torna-se cada vez mais patente a movimentação das placas tectônicas terrestres em torno da divisão do planeta em três super potências, inaugurando um novo período de vassalagem. Por incrível que pareça, as armas nucleares cumprirão a sua função de dissuasão com maestria e abrirão espaço a outras guerras, nem sempre com vencedores.
Voltemos ao meu avô. O problema é complexo e inédito desde a II Guerra no século passado, quando foi inaugurado um período chamado Guerra Fria e que proporcionava equilíbrio e desenvolvimento, pelo menos a um lado do hemisfério. Hoje, organismos como a ONU estão em frangalhos e sem moral, devido à sua omissão ou impotência perante os conflitos recentes, nomeadamente Gaza e Ucrânia. Observa-se a olho nu o surgimento de um novo establishment de retorno à barbárie e à lei do mais forte. Não é exagero afirmar que o cidadão comum se sente mais inseguro do que nunca. O que fazer?
Defendo a tese de que é nestes momentos críticos de vulnerabilidade, que precisamos resgatar o que é essencial ao ser humano. Não é solução fácil para o grande problema! Porém, revela a capacidade de sermos inteligentes criando anticorpos e “ilhas de imunidade” social que protejam a nossa saúde mental. É disso que necessitamos no momento, uma vez que nenhum dos leitores almejará frear Trump nas suas loucuras! Relacionamentos saudáveis, implicando em proximidade e cultivo da afetividade, abertura à espiritualidade (que não é sinónimo de religião) e, porque não, hábitos de meditação, tornam-se fundamentais.
Ao tentarem nos reduzir a peças de um xadrez manipulado pelos grandes deste mundo, garimpamos dentro de nós o antídoto e nos protegemos, reforçando o sentido da vida que nenhuma circunstância pode roubar. Vikctor Frankl (personagem que já trouxe noutra crônica), o fundador da Logoteria, uma abordagem da psicoterapia que busca ajudar as pessoas a encontrar um sentido e propósito em suas vidas, perdeu os pais e a esposa no Campo de Concentração. Ele mesmo, sobreviveu impedindo que lhe roubassem o sentido para a sua vida, mesmo no sofrimento extremo. Esse homem nos ensinou a resiliência perspicaz em situações de limite.
Vivemos uma mudança de época. Não uma época de mudança! Há uma revolução em curso em praticamente todas as áreas, como não se via talvez desde a Revolução Francesa! O impacto em nós, sobre o nosso arcabouço mental é tremendo. Nenhum ser humano está preparado para assistir de camarote a tanta transformação. A internet não é apenas um meio. É um ingrediente fundamental deste caldo cultural e social que nos envolve. As redes sociais não ampliam vozes e sim, “criam vozes”! Elegem e derrubam governos e ameaçam a democracia. Combater legalmente os abusos é importante, mas saber dosar a conectividade, evitar a hiper conexão e privilegiar o mundo real, é imprescindível e tarefa pessoal. Eis o remédio à mão, para atenuar os efeitos desta pandemia social e geopolítica que nos abalroa!
Tomar um café com amigos e dar boas risadas, também se configura uma ótima terapia!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina
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