Sobressaltos novos e reeditados
O Brasil é um país onde constantes sobressaltos atingem os cidadãos por conta da corrupção na administração pública. Mal um escândalo irrompe e outro é revelado, eventualmente maior que o anterior, sendo raríssimos os casos em que os valores subtraídos foram restituídos aos cofres públicos. Prisões às vezes ocorrem, geralmente na faixa dos escalões inferiores, mas parece não existir legislação que leve um acusado a devolver o que roubou. Prazos vão se vencendo até que os processos caduquem e tudo fique por isso mesmo. Agora é o rombo milionário no Ministério das Relações Exteriores o Itamaraty que pode chegar a R$ 100 milhões, um crime continuado de desvios que começou em 1997 e veio se sucedendo até o ano passado. A denúncia envolve um departamento do Itamaraty, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, e a empresa de turismo Voetur, vencedora de licitação para fornecer passagens aéreas e infra-estrutura para viagens de funcionários que operam na parceria entre o Governo brasileiro e aquele programa. O escândalo consiste de viagens não realizadas mas cobradas do Itamaraty. Uma bem urdida falcatrua, que certamente escapou do controle, como quase tudo que envolve dinheiro público neste País.
Quem apura o fato é o Ministério Público Federal, e as partes denunciadas já se defendem e fazem contra-acusações, podendo-se imaginar que o resultado final será idêntico ao de tantos outros, apenas com muito alarde dos veículos de comunicação. Que cumprem seu papel mas não podem punir culpados e exigir que restituam o dinheiro subtraído do povo, um caso sucedendo o outro, num corolário que parece não ter fim.
Mas o montante desse escândalo e a oportunidade induz a rememorar ainda é de baixa intensidade em relação a outro, que não aconteceu em altas esferas da administração pública federal, mas em Londrina, e atingiu a escala de R$ 184 milhões, portanto quase o dobro daquele. Trata-se da quantia relativa à venda de 45% das ações da companhia telefônica municipal, que foi paga à vista e até hoje a comunidade não sabe que destino tomou. Um indíce considerável na estatística sinistra de Londrina e que bate recorde nacional no ranking da podridão que assola a administração pública brasileira.
Já não surpreende o volume dos escândalos e das gigantes somas desviadas, em todos os poderes da esfera oficial, neste País, e isto parece já haver inoculado o próprio povo e lhe dado apenas o direito de ficar indignado e perplexo, e obrigado a esquecer, até que lhe chegue o próximo sobressalto. Em Londrina, os protagonistas dessas vergonhas públicas e que vêm frequentando há anos o noticiário, estão todos aí, no ponto de largada, prontos para nova investida. O cenário mostra os mesmos personagens outra vez em cena. Passada a tempestade das primeiras horas, aves que estavam dispersas começam a reagrupar-se, fazendo lembrar os sinistros e amedrontadores pássaros de Hitchcock.





