Sobre o orgulho de ser reaça
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de agosto de 2016
Leandro Cesar Leocádio 
Se você, caro leitor, tem uma vaga lembrança dos momentos finais do século XX, deve se recordar que neste período informações enaltecendo uma sociedade livre e respeitosa para com a pluralidade de ideias eram muito valorizadas. Enquanto o mundo vibrava com o fim da Guerra Fria e acompanhava o muro que dividiu Berlim por décadas vir abaixo, por aqui, depois de anos vivendo sob a tutela de um regime ditatorial, os primeiros passos eram dados rumo à tão almejada democracia. Em uníssono, o clamor era por um governo completamente distinto ao implantado pelos militares. Em meio a esta conjuntura, o Brasil parecia se distanciar de seu passado (diretamente atrelado aos séculos de escravidão e subserviência colonial) marcado por governos autocráticos, uma organização social extremamente excludente e uma forma bem típica de preconceito.
Mas em meio à conjuntura política predominante desde então envolvendo esquemas corruptos muito bem tramados e variados, um modismo que julgávamos ultrapassado (e até mesmo perdido nas brumas nebulosas das disputas ideológicas que dividiu o mundo entre capitalistas e socialistas no século passado) renasceu, muito graças aos achismos curtidos, comentados, compartilhados e propagados pelo universo virtual: a moda agora é ser reaça e ter orgulho em se declarar como tal. E que não se confunda este reacionarismo que está fazendo a cabeça de inúmeros formadores de opinião que dialogam com as massas com a ideia de se conservar algo, já que todos aqueles que vivem em sociedade têm como interesse em comum algo a conservar (amizades, relacionamentos, empregos, estabilidade, enfim, uma infinidade de coisas e situações).
Talvez, o principal ponto a se destacar em uma pessoa que opta por propagar ideias reacionárias é o seu discurso inflamado em relação ao que é contrário às verdades que é levado a defender. Se alguma ideia se distancia dos posicionamentos tidos como verdades absolutas, logo é taxada de esquerdista. E se surge a mais simples dificuldade em classificar um discurso apresentado, mais simplório ainda é a rotulação: no linguajar reacionário, é "isentão". Movidos pela mais "fina" convicção, retardam discussões sérias e distorcem propositalmente assuntos importantes de serem debatidos.
Na lógica reacionária, questões ligadas à igualdade entre os gêneros se torna ideologia de gênero (como se ideologia fosse uma construção intrínseca ao universo da esquerda); os centros de ensino estariam repletos de militantes doutrinadores, daí a urgência de projetos como o Escola sem Partido; políticas de afirmação social são esmolas governamentais; a onda de violência na atualidade é tamanha que a única (ou "a melhor") solução é reduzir a lei da maioridade penal; e por aí vai.
Ferrenhos opositores de qualquer perspectiva entendida como doutrinadora não percebem que são eles os próprios doutrinados, fantoches deprimentes nas mãos de gurus alucinados que coordenam exércitos de seres humanos completamente amorfos, incapazes de perceber que esta atitude extremista os aproxima daqueles que são induzidos a odiar: os militantes extremistas de esquerda que, desligados do contexto social atual, não percebem que o socialismo como perspectiva governamental se restringe, como bem lembra o historiador Leandro Karnal, a lugares como Cuba, Coreia do Norte e diretórios acadêmicos da área de humanas.
O proselitismo em todos os aspectos é pernicioso e perigoso, e todo extremista não escapa deste engodo, esteja ele do lado esquerdo ou direito do muro da dicotomia. Millôr Fernandes advertiu anos atrás que as ideologias quando se encontram na terceira idade vêm habitar terras tupiniquins. Poderia ele imaginar que em pleno século XXI pessoas se empenhariam tanto em ressuscitar ideias reacionárias já tão retrógradas?


