Sobre o documentário ''Fahrenheit''
Os norte-americanos não tiram lições das guerras, pela simples razão de que não as fazem com esse sentido e sim pela defesa dos seus interesses econômicos, e tantas delas farão quanto julgarem conveniente e oportuno. O documentário ''Fahrenheit'', por origem (de onde procede) e pela sua natureza (a guerra e seus desdobramentos), já é por si mesmo um produto de consumo popular e de renda, para o qual não faltam ávidos compradores. Sem novidade portanto, porque é assim que as coisas são nos Estados Unidos da América. Não seria preciso mais essa produção que é de ótima qualidade e consagradora como trabalho jornalístico se o objetivo de Michael Moore visasse fazer alguma revelação ao mundo sobre a razão das guerras americanas ou das suas ingerências para que elas irrompam em alguma parte do planeta; mas será sempre necessário produzir denúncias desse teor para fim de a humanidade não ter equívocos e, pelo menos, não ser enganada. O documentário poderá influir pouco na eleição presidencial de novembro, nos Estados Unidos, e se George Bush não se reeleger será, certamente, por razões outras e não pela denúncia de ele e sua família terem se envolvido com os árabes em negócios de petróleo, de proteger os Bin Laden após o atentado de 11 de setembro e de destruir Saddam Hussein e o Iraque. O povo norte-americano aprecia os negócios, tem no êxito deles um dos seus fortes fundamentos, e justifica as guerras e os seus Presidentes guerreiros quando em defesa desses ideais. Bush se proclama um ''presidente da guerra'' e não teria a coragem de dizê-lo se não contasse com a cumplicidade da maioria de sua gente. Grandes negócios, nos EUA, giram em torno do antes, do durante e do depois das guerras. Destruir, reconstruir, eventualmente destruir de novo, e assim sucessivamente. Por interesses particulares, como no caso dos da família Bush, como o documentário mostra, ou por interesse da nação, a civilização estadunidense é apologista das lutas armadas, e os cidadãos são todos soldados em armas em suas convicções. Não à toa, na grande potência à cabeceira da América, servir à pátria é um ideal, e a deserção uma das maiores desonras. As crianças já são psicologicamente preparadas para a idéia futura da convocação e as mães sabem que tal poderá ocorrer com os filhos. O que desencanta a humanidade é saber que, de certa forma, é cativa e dependente das políticas emanadas da poderosa nação americana e do que os seus interesses econômicos, na relação com as nações, podem gerar na contrapartida. O que os Estados Unidos fizerem acontecer, e o que acontecer aos Estados Unidos, causará reflexos sobre todos os povos do mundo. O documentário ora em lançamento é mais um alerta, implícito e sutil, sobre esta verdade, embora Moore não o tenha feito com esse propósito e sim como denúncia e protesto de um comum cidadão americano, talvez menos um pacifista ou um pretenso despertador de consciências e mais um convicto profissional de mídia no exercício da função e da oportunidade. ''Fahrenheit'', embora nenhuma novidade para os conscientes da realidade que o povo da Terra vive neste início de terceiro milênio, não deixa de ser inquietante.





