Sobre o Dia do Professor
E então revi Sociedade dos Poetas Mortos e, de novo, emocionei-me com o Sr. Keating
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sexta-feira, 17 de outubro de 2025
E então revi Sociedade dos Poetas Mortos e, de novo, emocionei-me com o Sr. Keating
Daniel Medeiros 
Depois de 35 anos, voltei a assistir Sociedade dos Poetas Mortos. Na primeira vez, no cinema, lembro que saí profundamente tocado pela experiência daquele professor que ensinava a importância do presente aos seus jovens alunos da elite branca norte-americana, tão obcecados pelo futuro. Na época, eu era um jovem professor e sentia-me membro dessa confraria de adeptos do carpe diem — mas certamente sem a maturidade, nem mesmo o tempo disponível e as condições financeiras para exercer a autonomia que, embora uma aspiração iluminista de pretensões universais, é possível para poucos, muito poucos. E eu não era um desses poucos — pelo contrário.
Recordo-me de que, nessa época, já casado, dava três turnos de aulas e, em alguns dias, começava às 7h15 e terminava às 23h. Exausto, zonzo, não conseguia reunir forças para nada além de alimentar-me, tomar banho e dormir — para, no dia seguinte, repetir, pedra acima, a jornada. Não obstante, como dizia o poeta, à parte isso, tinha em mim todos os sonhos do mundo.
Fui ver o filme que uma aluna havia me indicado porque achava-me parecido com o Sr. Keating — e imaginei-me mesmo sendo um pouquinho capaz dessas proezas do encantamento com meus alunos. Pois, pouco tempo depois, recebi uma cartinha de outro aluno: ele também havia visto o filme e me identificara com o personagem. Fiquei extático. Seria possível que, de fato, eu estivesse fazendo alguma diferença para aqueles jovens?
Eu, que não via o dia passar, que repetia e repetia aulas em troca de pagar as contas, pensar em ter um filho um dia, sonhar com uma viagem à Itália, quem sabe trocar o carro velho, aprender uma língua, fazer um mestrado... Será que, nos desvãos da minha rotina diária, sem que eu percebesse, um pouco dos meus sonhos escapava de dentro de mim e impressionava alguns daqueles alunos?
E desde então, lá se foram as décadas. Tive um filho, depois adotei mais duas filhas. Comprei uns três ou quatro carros, viajei bastante (e continuo viajando), aprendi mal e mal algumas línguas. Fiz mestrado, doutorado, pós-doutorado. E continuo na escola, dando aulas.
O ritmo, porém, mudou muito. Alcancei aquela autonomia que é para poucos. E então revi Sociedade dos Poetas Mortos e, de novo, emocionei-me com o Sr. Keating e com essa tarefa de encantar jovens que a docência pode, às vezes, promover.
Uma passagem, em especial, destacou-se para mim nessa segunda “leitura” do filme. O diretor, depois de castigar com uma palmatória um dos jovens que havia publicado um artigo no jornal da escola pedindo o ingresso de garotas, tenta admoestar o Sr. Keating, dizendo-lhe: “O senhor deveria ter cuidado com o que faz com esses jovens; eles são muito impressionáveis nesta idade.” E o Sr. Keating então respondeu: “O senhor ontem causou uma forte impressão nele.”
Esse é o segredo do encanto que o filme proporciona: ele defende a liberdade e a paz que só o respeito pelo outro é capaz de promover. O diálogo difícil com outras gerações, por mais penoso e frágil que seja, é o único caminho para buscarmos um mundo melhor. E isso não é uma tarefa para o futuro, mas para o presente. Para o agora. E não podemos deixá-lo escapar.
Na mesma semana, assisti Steve — com Cillian Murphy — sobre um professor em uma escola para jovens vulneráveis, sem recursos e sob ameaça de fechamento. Mesmo diante da dificuldade e precariedade, ele se esforça para construir relações humanas com alunos que ainda não haviam perdido sua humanidade. Enquanto isso, uma equipe de TV percorre a escola, entrevistando alunos e professores, tentando mostrar a impossibilidade do projeto e reforçando o “não tem jeito mesmo”.
Mas não era o que pensava o professor — nem sua equipe. O amor (philia) não traz recursos apaga o passado, mas é capaz de dar um presente — um dia de cada vez. Aliás, o tempo de duração da história do filme é de um dia. Um dia com conversas, respeito, energia, atividades, escuta, abraços, com a certeza de que, apesar da raiva, da frustração, da falta de dinheiro, tempo e solidariedade das autoridades, é possível fazer um dia ser melhor.
P.S.: O Sr. Keating e o Sr. Steve são os professores que sempre quis ser. Se fui ou sou, não sei — porque não sou eu quem me nomeia. Mas o desejo é meu. E, se persisto na profissão há 42 anos, é porque a emoção de ser só um pouquinho assim ainda me empurra, dia a dia, para a alegria e para o desafio do meu trabalho.
Daniel Medeiros, professor no Curso e Colégio Positivo


