Não há dúvida de que, ante a situação de miséria a que chegaram milhões de brasileiros – por descaso dos governos e da própria sociedade – é preciso socorrer esses carentes, mas o ‘‘novo’’ Governo Lula não pode pensar apenas neles. Ou os manterá na pobreza, porque essa assistência não os emancipará. O presidente Lula terá de dedicar-se, paralelamente, também a políticas públicas que, de fato, destravem o crescimento econômico. Destravar é um propósito e uma expressão dele, mas por ora não se sabe como esse fenômeno ocorrerá.
  O pacote anunciado deve conter a fórmula, mas poucos acreditam em alguma alquimia salvadora. Até pela amostragem destes primeiros quatro anos de governo. É do conhecimento elementar que sem o fortalecimento da economia a pobreza se perpetuará. Por economia leia-se a atividade produtiva, que tem nas empresas e instituições o sustentáculo, porque são elas que abrem vagas de trabalho, produzem bens, acionam o giro de dinheiro e geram tributos. Em seu segundo discurso, terça-feira, Lula falou do ‘‘coração grande’’ de seu Governo, mas não o abriu para a comunidade produtora, que é a que agüenta a carga pesada neste país.
  Cidadania – a que se referiu o Presidente – é também isto, sem discriminação. Por questão de fraternidade e humanismo, o Estado precisa ser generoso com os tantos carentes necessitados – produto de negligências de muitas décadas – mas para tirar os pobres dessa condição será preciso zelar também pelos ricos, se é com esse nome que os entendem as mentes desfocadas ao referir-se à classe empresarial. Porque esses ‘‘ricos’’ são grandes alicerces que mantém o Brasil em pé. A revolução operária, no sentido da emancipação por via do emprego e do bom ganho, passa pelo fortalecimento das instituições empregadoras.
  Se Lula for apenas o ‘‘Presidente dos pobres’’, verá o número deles aumentar. Ele tem mais uma chance de, mesmo dando o necessário atendimento às carências sociais, voltar sua atenção e suas políticas também para o incentivo ao crescimento econômico. Que acontecerá pela redução do abuso de gastos governamentais, pela diminuição dos impostos e dos entraves burocráticos, pela intervenção junto ao Congresso visando as reformas que se fazem necessárias, incluindo a lei reguladora do trabalho, que é inibidora do emprego; pela diminuição dos juros, que sangram empresas e cidadãos e aumentam a própria dívida pública. Uma desesperança é constatar que Lula acha que tudo está bem e que o Brasil navega em mar de tranqüilidade.

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