Sobre futebol e educação
O futebol pode nos ensinar várias lições. Ontem, por exemplo, o Barcelona nos mostrou a importância do investimento, do planejamento e das metas. Do outro lado do mundo, o time catalão fez do Santos um mero coadjuvante e comprovou que não se chega ao topo por acaso. Assim é também nas coisas da vida e dos governos. Tomemos o exemplo da educação.
No Japão, país que sedia o Mundial de Clubes, a educação obrigatória inclui educação infantil (de zero a cinco anos) e o ensino fundamental (que lá tem duração de nove anos, dos seis aos 15). Isso desde 1947. Os japoneses decidiram investir pesado em seu sistema educacional no pós-guerra, como forma de superar as dificuldades e garantir mão de obra qualificada que pudesse agregar valor ao que se produzia. A economia do país asiático respondeu à altura, crescendo e garantindo qualidade de vida à população.
Algo semelhante também aconteceu no Barcelona. Há quarenta anos, o clube espanhol, consagrado ontem como o melhor do planeta, passou a investir pesado nas categorias de base e construiu uma fábrica de craques - a La Masia - que revelou dezenas de jogadores para o mundo do futebol. Para citar só o mais recente deles: Lionel Messi, o gênio argentino que chegou ao clube com 12 anos. Neste ano, o Barça apresentou ao mundo sua nova La Masia que, além da parte esportiva, tem também uma estrutura educacional voltada para a formação de seus pequenos atletas.
Agora, vejamos a situação do Brasil. Em entrevista publicada ontem pela FOLHA, o professor José Marcelino de Resende Pinto, especialista da Universidade de São Paulo (USP), engrossou o coro dos que exigem a aplicação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação, conforme determina o Plano Nacional de Educação (PNE). Hoje, o País aplica vergonhosos 4,5% da riqueza produzida anualmente para garantir ensino às suas crianças, jovens e adultos. O investimento anual por aluno não chega a R$ 3 mil.
Dados do próprio Governo mostram que o ensino infantil alcança apenas 38% das nossas crianças entre 0 e 5 anos. Outro dado crítico: entre os adolescentes de 15 a 17 anos mais pobres, somente 32% frequentam o ensino médio.
No início de dezembro, estudantes ocuparam o Congresso exigindo mais investimentos e criticando a proposta do deputado federal pelo PT do Paraná, Ângelo Vanhoni, de rebaixar a meta de investimento para 8% do PIB.
Tamanha omissão tem seu preço: o País é apenas o 88º colocado no ranking mundial de desenvolvimento da educação, atrás de nações muito mais pobres como Honduras, Botsuana e Paraguai.
Se nossas próprias mazelas não nos ensinam, então por que não aproveitamos para aprender com as boas lições alheias? Por enquanto, tal qual aconteceu com o Santos, estamos perdendo de goleada.





