Sobre as concessões de rodovias
A cobrança de pedágio é uma questão que envolve muito dinheiro do povo e por isso não pode ser tratada aleatoriamente. Contestando a opinião deste Jornal, o presidente da Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias (ABCR), em São Paulo, não fala a verdade por inteiro ao declarar que ''nosso país segue na mesma linha de outras nações'' no que respeita ao modelo de pedágio. Diz que ''até 10 anos atrás o pedagiamento era aplicado, basicamente, a novos empreendimentos'' leia-se a construção de novas rodovias e que ''a participação do setor privado se estende hoje, em vários países do mundo, também à recuperação, manutenção e melhoria de rodovias existentes''. Se os Estados Unidos diminuíram em 65% os recursos públicos para o setor, como declara o representante da ABCR, isto se deve justamente ao inteligente sistema de privatização, sem investimento governamental na implantação de novas estradas, e naturalmente com a cobrança de pedágio pela empresa ou empresas conveniadas. O reforço da estrutura rodoviária implantada, pelo sistema privado, foi que resultou naquela redução de gastos públicos no setor. Ao declarar que também outros países estão contratando empresas só para administração de estradas já existentes, a ABCR não informa o valor das tarifas para essas obras de manutenção. Com toda certeza são baixíssimas, pois já o são no sistema convencional. Este Jornal também disse que, nesses países, findo o contrato com as empresas conveniadas (geralmente após 25 anos), as rodovias são automaticamente revertidas para o Governo, sem ônus, podendo ocorrer de tais empresas continuarem no negócio, como mantenedoras. Então, o modelo brasileiro não tem similar no mundo porque aqui o que ocorreu não foi renovação e sim a liberdade imediata para cobrança de pedágio, antes de qualquer obra por parte das concessionárias (a não ser as praças arrecadadoras), e ademais com a cobrança de tarifas cheias, portanto pelo topo, em patamares só imaginados se as concessionárias houvessem construído as rodovias. Nos países capitalistas inventores e implantadores do pedágio não é novidade a renovação de contratos com o fim do prazo contratual, mas a ''novidade'' é que, nesses casos, as tarifas caem verticalmente. No Paraná, em 8 anos de pedágio, pouco se viu em duplicação de rodovias e manutenção, esta incompleta e precária em vários trechos. Muito pouco para tantos anos de contínua arrecadação e a preços tão altos para o usuário. Basta ver quanto um caminhão de carga paga em pedágio áááá por exemplo de Foz do Iguaçu ao porto de Paranaguá. Isto representa perda de lucro do caminhoneiro, encarecimento das mercadorias transportadas, cessação de atividade de muitos restaurantes das margens das estradas, porque os motoristas passaram a economizar na comida por conta do encargo do pedágio. Repita-se que culpa nem cabe às concessionárias se o governador Jaime Lerner aceitou as condições e firmou contratos. Cumpre-lhes, sim, segui-los. O presidente da ABCR afirma que, ''no Brasil, desde o início dos contratos, as concessionárias já investiram R$ 10 bilhões'', mas seria bom saber em que, e também que se informasse quanto elas arrecadaram no mesmo período.





