Sobre as aparências (saber e guerra)
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2003
Pires Laranjeira 
É possível aproximar as pessoas do conhecimento. A condição necessária é que tenham acesso à informação e saber. Mas não basta. O método torna-se importante. Estar na posse da idéia de que pensamos através de mediações (meios de comunicação, linguagens, sistemas, modelos) é um primeiro passo para identificar problemas e conseguir um modo de pensar neles adequadamente: para resolver questões práticas.
Neste mundo de proliferação de tensões, confrontos, guerras e armas de todo o gênero, proliferam também as informações, os profetas, os explicadores, os formadores de opinião, numa abundância que parece sem limites e que ameaça de saturação o espaço público, a todo o momento. Trata-se de um verdadeiro bombardeamento de discursos, de informação necessária e, sobretudo, de desinformação ou informação descartável.
A preparação da guerra contra o Iraque pelos Estados Unidos é a evidência do bombardeamento de informação (de propaganda) que precede os bombardeamentos mortíferos (são de prever milhares e milhares de mortos). Ambos atingem os inocentes e desprevenidos. O da desinformação destina-se a transformar os não iraquianos em cúmplices anestesiados de um crime global sancionado por governos e estados.
As populações têm sabido portar-se melhor do que a generalidade dos poderes. O das armas tem como objetivo assegurar a hegemonia do novo império global do planeta (ou quase global: resta esperar para ver o que farão chineses, indianos, russos e outros e, já agora, brasileiros). O escritor norte-americano Gore Vidal mostrou como nasceu este império americano no início do século XX, com o seu romance precisamente chamado Império, uma grande narrativa que incomoda aqueles que acham que as grandes narrativas já não têm razão de existir.
A população ocidental(izada), durante séculos, foi bombardeada com informação que diabolizava o Oriente, os árabes, os comunistas, os chineses ou os fundamentalistas, como se todos os outros estivessem sempre a prevaricar na rota da ordem e de um progresso único. Aparentemente, a Europa, o Ocidente, o Norte, os brancos e a grande civilização judaico-cristã, protestante, ariana ou nascida desde a bacia do Mediterrâneo ao mar aberto do Atlântico deviam deter a verdade do mundo. Os outros apenas se limitariam a segui-la.
A diversidade do mundo e dos saberes veio mostrar que, afinal, mesmo no chamado Ocidente, o conhecimento é transitório e a verdade, uma aparência. Alguém lhe chamou, um dia, ''câmara escura''.
Resta pensar e repensar, confrontando os saberes, no meio do lixo da informação desnecessária, mantendo a dúvida constante. Esse é o melhor método de ir matando as aparências. Por um renovado combate, em todos os campos, até ao extermínio final da ignorância.
PIRES LARANJEIRA é professor da Universidade de Coimbra, em Portugal


