Sobre a violência
Maria Lucia Victor Barbosa
‘‘Mais uma vez, não sabemos onde esses acontecimentos nos levarão, mas sabemos, ou deveríamos saber, que toda diminuição de poder é um convite à violência’’ (Hannah Arendt). Na noite de quarta-feira um rapaz de 24 anos entrou num cinema do MorumbiShopping em São Paulo. Seu nome é Mateus da Costa Meira, e nada de especial distinguia o estudante de classe média alta, que cursa o 6º ano de Medicina, dos outros jovens que ali estavam para um momento de lazer. Mateus foi ao banheiro e deu um tiro no espelho com uma submetralhadora. Depois, entrou na sala de projeção e como uma besta-fera ensandecida descarregou a arma na platéia, atirando a esmo.
Assim, de forma brutal se fez o espanto, passando-se da calma ao desespero, da tranquilidade ao pavor. Mas quem naquele local de aparência segura poderia imaginar tanta violência, a não ser a que vinha da tela em forma de ficção? Quem seria capaz de predizer que o terror, que ronda por toda parte deste ‘‘admirável mundo novo’’ de desgoverno familiar, político e social, se instalaria na pacífica e aconchegante sala do cinema? Absortos no filme, os espectadores custaram um pouco a se dar conta de que os tiros de metralhadora eram reais e rápidos raios mortais que mataram três pessoas e feriram gravemente cinco.
A notícia é de estarrecer. Ela anuncia um ato monstruoso, pois a ação cometida ultrapassa qualquer vestígio de racionalidade no sentido de que, aparentemente, não há nada que a justifique. Algo, portanto, desumano, aconteceu, o que deveria fazer estremecer os humanos que ainda não perderam a capacidade de se indignar, que ainda possuem padrões morais e que não se afastaram dos valores que lhes servem de bússola na caminhada da vida.
Desta vez o acontecimento não se deu nos Estados Unidos, para que digamos hipocritamente reconfortados: isto não é conosco, isto é coisa lá deles. Desta feita aconteceu entre nós. E é preciso se indignar, estarrecer e apavorar diante da escalada da violência. É necessário parar de responsabilizar simploriamente o presidente da República por tudo o que acontece e perguntar o que nos sucede a partir de um processo. Que realidade abstrata, desumanizada é esta que estamos construindo como ‘‘macacos supercivilizados’’ do futuro, e que nos faz reféns da violência inimaginável. Sim, porque a banalização da violência gratuita está conduzindo o homem a um perigoso embotamento no qual a capacidade de discernir entre o certo e o errado, entre o real e o imaginário, está se perdendo.
No Brasil, possuímos características específicas, estimuladoras da violência: temos instituições de poder frouxas e corruptas, complacentes com o que ocorre. Possuímos contrastes sociais aprofundados. Somos moralmente dúbios, sendo adeptos incondicionais do ‘‘viva e deixe viver’’. Além do mais, aqui os valores são comumente invertidos e, assim, os honestos se recolhem em prudente silêncio, pois sabem, inclusive, que qualquer denúncia sobre atos ilícitos, seja do poder público ou do privado, os transformará em ‘‘culpados’’ e os culpados em ‘‘inocentes’’.
Cala-se, pois, amedrontada e insegura a sociedade brasileira, refém de bandidos que pululam impunemente por toda a parte, enquanto tudo facilita e estimula a criminalidade. Vejamos alguns exemplos.
Nas favelas, nos bairros pobres, as chacinas assumem a forma de vingança entre gangues envolvidas com drogas. Nesse mundo cão, as leis são feitas pelo traficante, e mais que as dificuldades impostas pela pobreza (pois pobre não nasce intrinsecamente bandido) é ele que, através do crime organizado, prodigaliza a violência, consuma-a e a irradia para o resto da sociedade. O narcotráfico está colombializando o Brasil de cabo a rabo, desde as classes baixas até as mais altas.
Da omissão do poder, quer seja político, quer seja familiar, as tragédias brotam e a selvageria sobe à tona. Isso se deu na última rebelião da Febem, quando bandidos que costumam ser chamados de crianças mataram quatro dos seus, sendo que dois deles tiveram as cabeças arrancadas a pauladas.
Diante da inoperância do poder público federal e estadual, terras produtivas continuam a ser invadidas e destruídas. Isto é perpetrado por uma ‘‘irmandade’’ chamada MST e seus congêneres. Aqui se inclui o elemento ideológico, e este sacramenta perigosamente a violência. Ela é justificada pelos muitos que são iludidos pela crença messiânica da construção de uma ‘‘nova sociedade’’, e incentivada pelos poucos que sabem que essa ‘‘nova sociedade’’ só é idealizada para que se cumpram seus interesses de poder, pois a história já demonstrou inúmeras vezes que esse tipo de utopia só é realizável na sua porção mais tenebrosa.
Na verdade, há várias maneiras de se analisar a violência, e inúmeros especialistas das mais diversas áreas da ciência já o fizeram, o que torna impossível discorrer adequadamente sobre o assunto num pequeno artigo. Uns a encaram sobre o prisma da defesa natural do homem. Outros, de acordo com o ângulo da política, incluindo-se aí estudos sobre guerra e ideologia. Alguns a situam sob o ponto de vista social, e outros através da psicologia dedicando-se a análises a respeito de istúrbios mentais e estados de consciência alterados por drogas.
Mas o que dizer dos jovens da classe média que se comprazem em atear fogo em pessoas indefesas? Ou deste Mateus que estava para fazer em breve o juramento médico de preservação da vida e sentiu necessidade de matar?
Há algo mais que precisa ser entendido nesse mundo, em que um processo de desintegração atinge todos os aspectos da sociedade, do familiar ao cultural e político, dando aos indivíduos a impressão de impotência diante da realidade. Sem valores, sem fontes de poder e de autoridade, portanto, sem rumo, o homem se brutaliza, desumaniza-se e atira a esmo. Ele consuma a horrenda autoglorificação da violência. Não é apenas um louco ou um drogado, o que seria um diagnóstico muito fácil. É um monstro, porquanto uma criatura esvaziada de sentido.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E - mail: [email protected]

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