De tempos em tempos sempre ressurge nos noticiários, nas discussões políticas, religiosas e pseudocientíficas sobre a tal da cura gay. Já escrevi alguns textos sobre esse assunto, mas nunca é demais escrever outro se for para clarear um pouco as ideias e debelar a ignorância que teima em se fazer presente nesse assunto. Quase todo mundo tem uma opinião sobre a cura gay, porém são poucos os que vão mais a fundo na questão. O que predomina é o preconceito e a desinformação.

Primeiro precisamos entender o que é cura. Até mesmo na medicina onde esse termo é amplamente empregado há um mal-entendido. O termo cura não implica o fim de um mal, o término de algo e a conquista de uma normalidade. Isso é o que desejamos em muitos casos, contudo não é real. Cura tem mais a ver com o cuidado, com o ato de cuidar. Veja por exemplo o curador de um museu. Ele nada mais é que um "cuidador" de uma dada exposição e obras sob seus cuidados. A cura precisa ser entendida dessa forma e não como ato mágico que faz desaparecer aquilo que não gostamos e não compreendemos.

A cura gay entendida como a erradicação da homossexualidade é algo estúpido e ignorante. E mais, é também violento. Não há fundamentação médica, psicanalítica e científica para algo como a cura gay. Primeiro porque homossexualidade não se trata de um mal, de uma doença. Segundo, e mais importante, a vida sexual depende da vida mental de cada sujeito. Não há manual de instrução do que seja certo e errado nessa área e insistir nisso é negar a condição humana que é variada.

Desde o início da psicanálise Freud percebeu que a sexualidade humana difere muito da dos animais. Estes últimos são mobilizados pelos instintos que padronizam os comportamentos e maneiras de agir. Gansos canadenses migram no outono para lugares mais quentes. Fêmeas dos mamíferos entram no cio procurando parceiros para a cópula. Isso tudo é instinto, é comportamento padronizado biologicamente. Com os humanos, entretanto, as coisas funcionam de maneira diversa.

Nossa vida mental que influencia e molda nossa sexualidade depende da subjetividade de cada sujeito. A particularidade do psiquismo de cada indivíduo irá possibilitar quais modos de relacionamento na vida são possíveis e irá definir as fantasias de cada um. Nossa sexualidade está ligada às fantasias e não aos instintos. Com isso Freud nos fez saber que a sexualidade humana não é dada biologicamente apenas, mas está conectada ao desejo e à subjetividade de cada um. Tendo isso em mente torna-se abusivo tentar normatizar a sexualidade. Seria o mesmo que negar e arrancar o psiquismo de cada sujeito. Viraríamos animais sem nada da qualidade humana.

Aos psicanalistas, médicos, psicoterapeutas cabe acolher o seu paciente sem moralismos e sem tentar normatizar (violentar). "Curar" o seu paciente nada mais é que cuidar desse paciente para que ele aprenda a se cuidar de maneira eficiente. Os pacientes que sofrem angústias, sejam homossexuais ou não, precisam de um espaço que não seja um tribunal. Necessitam ser escutados, às vezes, pela primeira vez na vida, para assim desenvolver uma escuta de si mesmo que os permita viver com mais dignidade e menos sofrimento. A psicanálise, ao desenvolver uma visão contrária à religião e ao senso comum que condenam a homossexualidade e muitas outras formas de ser, permite que se deixe de lado os julgamentos e abre espaço para valorizar a singularidade de cada sujeito. Só assim haverá possibilidade para existir o humano que vive a vida e não o humano que serve apenas ao ideal falsificado.

Sylvio do Amaral Schreiner, psicoterapeuta

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