‘‘A morte pertence à vida, como pertence o nascimento. O caminhar tanto está em levantar o pé, como em pousá-lo no chão.’’
R. Tagore (‘‘Pássaros errantes’’)
Com o mesmo título do presente artigo, a psiquiatra americana Elisabeth Kubler-Ross publicou em 1969 um estudo já clássico na literatura sobre a fase final da vida. O trabalho é verdadeiramente uma dissecção profunda do tema e identifica cinco diferentes fases do comportamento humano diante da iminência da morte. O primeiro estágio é o da negação, o quinto e último é o da aceitação. Na cultura ocidental a morte é negada a todo momento. Sábias são, portanto, as palavras de Tagore ao incluir a morte no sentido da vida.
Esteve em Londrina recentemente o médico Prof. Dr. Gabriel Oselka que se dedica ao estudo de ética no relacionamento médico-paciente. Aqui defendeu a tese que a morte inevitável deve ser aceita com naturalidade. É preciso salientar que já é consenso nos meios científicos de todos os continentes que o doente terminal deve ser tratado com toda a dignidade que se devota ao ser humano e, não se concebe mais a busca obsessiva da manutenção de alguns dados vitais sem considerar os sofrimentos impostos ao paciente. A literatura médica até mesmo cunhou um termo para caracterizar estas condutas insensatas. A palavra é encarniçamento terapêutico . Tão forte é sua expressão que dispensa maiores explicações. Nos Estados Unidos da América já tem força de lei desde novembro de 1991 as decisões antecipadas. São documentos firmados por pacientes que estabelecem critérios para a assistência médica em situações de terminalidade da vida. Prescrevem, por exemplo, a vontade do paciente em não ter prolongado seu sofrimento por meios artificiais. Um documento semelhante permitiu que a Sr. Jaqueline Kennedy pudesse passar seus últimos dias de vida acompanhada das pessoas que amava e não cercada de uma parafernália de equipamentos médicos.
Pois bem, em um artigo publicado na página 3 da Folha de Londrina de 18 de abril p.p.,o jornalista Walmor Maccarini fez uma apreciação incorreta do pensamento do Dr. Oselka. Emitiu opiniões que, com o devido respeito, merecem reparos.
(1) Dr. Oselka não é defensor da eutanásia. Ele defende, como a grande maioria dos médicos, a morte com dignidade. Gostaria de chamar a atenção que estamos muito bem acompanhados nessa tese. Em 3 de agosto de 1980 o ‘‘L‘Osservatore Romano’’ (edição em português) publicou um documento elaborado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da FÉ, do qual reproduzo algumas partes: ‘‘A matéria proposta neste documento diz respeito, antes de mais nada, àqueles que põem a sua fé e a sua esperança em Cristo que, pela sua vida, morte e ressureição, deu um sentido novo à existência e, especialmente, à morte dos cristãos. Segundo as palavras de São Paulo, se vivemos para o Senhor e, se morremos, morremos para o Senhor (Rm 14,8)...Na iminência de uma morte inevitável, apesar dos meios usados, é lícito em consciência tomar a decisão de renunciar a tratamentos que dariam somente prolongamentos precários e penoso da vida...Por isso, o médico não tem motivo para se angustiar...’’
(2) Por outro lado, gostaria de conhecer os dados que permitiram ao articulista negar o milagre da ressureição de Lázaro realizado por Cristo, e que o faz afirmar que Jesus ‘‘apenas reavivou um envólucro carnal que ainda preservava seu fluído vital’’. Imperioso é recordar que no Evangelho de João lemos: ‘‘Então Jesus lhe falou claramente: Lázaro morreu...Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias...Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará.’’ (Jo 11-14,17,23).
Compreeende-se a posição do Walmor preso à vida ‘‘até o derradeiro sopro’’, afinal muitos são os que permanecem estacionados no primeiro estágio descrito pela Dra. Ross: a negação da morte. Esta atitude, contudo, é pouco razoável, pois até ele mesmo propõe que ’’ morte e vida se correlacionam. São co-irmãs’’. Considero, entretanto, injustificado que, sem ter sequer comparecido ao debate realizado no H.U., o jornalista tenha atribuido ao Dr.Oselka a defesa do ‘‘extermínio’’ de seres humanos. Este juízo, partindo de um experiente profissional da imprensa é, para nós leitores, uma enorme decepção.
Convidado está, desde logo, nosso amigo Walmor a filiar-se à Sociedade Brasileira de Bioética que, entre outros temas, reflete sobre a humanização da medicina e da morte com dignidade.
Para finalizar, deixo uma indagação: será que as ressureições descritas no Evangelho de Lucas, respectivamente, da filha da viúva de Naim e da filha de Jairo (Lc 7-11,17 e 8-49,56) também foram erros de interpretação de Jesus, pois as jovens ainda estariam com ‘‘os cordões de prata’’ integros que sustentavam suas ‘‘vidas corpóreas’’?

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