Sobre a morte e a bioética
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de abril de 1997
Walmor Maccarini 
Não ouso discutir bioética com o doutor José Eduardo de Siqueira, conceituado e competente médico cardiologista em Londrina. Porque significaria incursionar pelos caminhos da denominada morte com dignidade, e com todo respeito não consigo conceber morte digna ou morte menos digna quanto ao seu aspecto puramente fenomênico. O que importa discutir équando este fenômeno realmente acontece, e que esse fenômeno - no caso de doentes qualificados de terminais - não pode ser abreviado, sejam quais forem as razões.
O dr. Siqueira contesta pontos de artigo que escrevi nesta página, sexta-feira passada, em que critiquei a posição do médico Gabriel Oselka por defender que não se deve retardar a morte inevitável desses pacientes. Dr. Oselka, que já foi presidente do Conselho Federal de Medicina e é professor associado da Universidade de São Paulo, veio a Londrina para um debate (que ocorreu no HU), e em entrevista à imprensa disse que não se pode retardar a morte inevitável. Também disse que se o médico estiver convencido de que a doença não tem mais cura, deve explicar isto ao paciente e evitar sofrimentos desnecessários.
O que ele quis dizer com isto? Que se deve desconectar a vida. Foi então que empreguei palavras fortes como eutanásia e extermínio. O dr. Siqueira contesta, e afirma que o dr. Oselka não é defensor da eutanásia nem do extermínio da vida, mas que defende, como a grande maioria dos médicos, a morte com dignidade. Significaria, em outras palavras, uma morte programada. A mesma coisa.
O próprio doutor Siqueira afirma em seu artigo (publicado nesta quarta-feira), que ...não se concebe mais a busca obsessiva da manutenção de alguns dados vitais sem considerar os sofrimentos impostos aos doentes. Ora, se existem alguns dados vitais e se há um paciente em sofrimento, então a vida ainda pulsa!
Diz mais o doutor Siqueira: A literatura médica até mesmo cunhou um termo para caracterizar estas condutas insensatas: encarniçamento terapêutico, e tão forte é sua expressão que dispensa maiores explicações.
Ora, não se pode ir dispensando maiores explicações numa questão tão séria como a vida humana. A comunidade médica a favor de abreviar a morte inevitável tem, sim, que dar muitas explicações, e não dispensá-las assim por decreto. Ou estará outorgando-se todo o poder sobre a vida e a morte. O doutor Siqueira exemplifica que nos Estados Unidos há até uma lei que prescreve a vontade do paciente em não ter prolongado seu sofrimento por meios artificiais. Leis dos homens. Leis (também) de segmentos da comunidade médica.
O paciente que deseja a morte está revelando, na verdade, sua ânsia de viver.
O dr. Eduardo de Siqueira menciona que há humanização na medicina. Óbvio que há, e é preciso exaltá-la. Nem de longe ignorar a dedicação destes abnegados médicos, que mal dormem, que tão pouco recebem pelo seu trabalho quando vinculados a sistemas governamentais de saúde, e ainda recebendo com atraso. O que eu disse em meu artigo, e reforço agora, é que a função do médico é lutar pela salvação da vida, até o derradeiro sopro, e não favorecer sua extinção quando pressupõe que a morte é inevitável. Disse que nunca se sabe quando um doente está terminal, e nem a ciência médica convencional pode garantir que sabe, porque um número sem conta de casos já testemunhou que muitos terminais voltaram à vida. E também disse que o médico tem uma sagrada missão salvadora, que disto deve ter consciência e lembrar-se de seu juramento. E que, enquanto houver uma emanação de vida devem ser empregados todos os expedientes de salvação. Que num último minuto o doente grave pode chegar a um estado de lucidez e clarividência e manifestar um perdão ou um pedido de perdão, uma confissão, um voto, um arrependimento, o renascer para Deus. Que tal é possível e ninguém tem o poder e o direito de furtar-lhe esta derradeira oportunidade terrena.
Ninguém deseja que se prolongue a vida desses sofridos doentes, mas já existe um ramo da medicina que só se ocupa de eliminar, ou amenizar, a dor dos chamados doentes terminais, mas o dr. Oselka parece ignorá-lo ao defender que não se pode retardar a morte inevitável. Abreviar a morte não é uma atribuição nem um direito nem um poder do médico, e de ninguém mais. Só a Providência Divina pode extinguir a vida, que é dádiva de Deus.
Quanto ao questionamento sobre a ressurreição de Lázaro e do filho da viúva de Naim e da filha de Jairo, considero que tais episódios comportam múltiplas interpretações, pelo sentido hermético das Escrituras. Melhor seria nos debruçarmos em estudos mais aprofundados sobre a terapêutica que Jesus empregava, sobre sua força crística, suas parábolas, sobre a medicina transcendente e sobre a metafísica. Quem sabe aí encontraríamos melhores respostas sobre o fenômeno da vida. Corpórea e extrafísica. Se Jesus Cristo fazia, nós também podemos fazê-lo, e ainda melhor. Ele mesmo o disse. Por isso os médicos deveriam ocupar-se não de abreviar a morte inevitável mas de ressuscitar pacientes que morrem. Como fazia Jesus. Nós também podemos, e ainda melhor. Os cursos da ciência médica convencional poderiam adicionar esta tão instigante disciplina. Já é chegada a hora.


