A data de 2 de novembro acentua em mim a necessidade de pensar sobre a morte. Lembro-me de Montaigne, o fascinante filósofo francês do século XVI, que entendia, na esteira de Platão e Cícero, que filosofar é aprender a morrer.

Sinto uma profunda tristeza ao pensar na minha própria morte e na daqueles que amo. Sinto medo da morte. A propósito de uma possível tentativa de consolo diante do temor da morte ou de mitigação desse medo, alguém poderia lembrar de Epicuro: Para o filósofo grego, se estou vivo, a morte está ausente, se a morte se torna presente, eu já não estarei mais vivo. Por que me afligir? Ok, Epicuro, mas enquanto a morte está ausente eu tenho de viver, eu tenho de tomar decisões, e tudo isso faço com consciência de minha infeliz finitude. A morte está ao meu lado, como se fosse uma sombra.

Confesso que também me inquieta a ideia de ser eterno – que sentido teria a vida se não fossemos mortais? A ânsia de viver, de experimentar o mundo, parece depender diretamente do fato de que sabemos que vamos morrer. Sei que se trata de uma reflexão aparentemente simples (mas não esqueçamos que, no fundo, a filosofia é apenas uma sofisticação do senso comum, isto é, o senso comum elevado a uma maior precisão conceitual).

Por certo, não precisamos mergulhar nas águas profundas e turvas das reflexões metafisicas para nos defrontarmos com este desconcerto. A morte é angustiante. Ela é o fim das leituras, o fim das viagens, o fim do amor, o fim do sexo, o fim da música, o fim de tudo. Todavia, é ótimo que haja morte. Estou de acordo com o pensador Marcel Conche para quem - considerando os que não reconhecem valor explicativo algum nos discursos religiosos - desejar a vida só pode significar desejar uma vida mortal (a única que conhecemos). E se desejamos uma vida mortal, desejar a vida também terá de ser desejar a morte. Na verdade, a morte é uma condição da vida.

Assumir radicalmente nossa mortalidade nos capacita melhor para degustarmos a vida. Lembremos de Aquiles, o herói grego: os deuses é que devem invejar os mortais, pois é a nossa condição de mortais que permite sentir a importância de cada momento.

Faço aqui uma paráfrase das frases ditas pela natureza na prosopopeia que se encontra no capítulo 20 do livro I dos Ensaios de Montaigne, um dos grandes pensadores da morte: A morte é a condição de nossa própria existência. Ela é uma parte de nós, se quisermos fugir dela estaremos a tentar fugir de nós mesmos. O nosso ser, o ser que desfrutamos, tem uma parte igual na morte e na vida. O primeiro dia do nosso nascimento encaminha-nos tanto para morrer como para viver

Aguinaldo Pavão, professor de Filosofia da UEL

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