Com o advento das mídias sociais, espraia-se a comunicação virtual embalada em uma enxurrada de informações cotidianas, que obscurecem a nossa capacidade de reflexão crítica em uma arena de histerias capaz de gerar violência física e/ou simbólica. Assim, envoltos por pensamentos fundamentalistas que nos levam a uma verdadeira "caça às bruxas", lá vamos nós, espalhando o terror e expondo as querelas de uma sociedade ambivalente, típica da modernidade líquida. Cabe aqui, uma argumentação a respeito da recente onda de manifestações que buscou "conscientizar" a população londrinense sobre os "perigos" da denominada ideologia de gênero e sua possível implantação nos currículos escolares, cristalizando dentro de nós o medo e a insegurança em relação a suposta erotização de nossos infantes. Este tipo de movimentação política que não se importa com a história de vida alheia, tem alimentado o discurso do ódio, os sentimentos homofóbicos e a violência. É importante informar que decisões a respeito das normas gerais do ensino brasileiro é da competência da União, com amplo debate nas instâncias estaduais e municipais. Ademais, vale lembrar que o Plano Nacional de Educação (PNE) que serve de base para as diretrizes da educação brasileira, fundamentado no art. 214 da Constituição Federal Brasileira de 1988, foi aprovado em 2014, com veto ao artigo sobre identidade de gênero e sexualidade na escola, cujo texto original visava o combate a todas as formas de preconceito, discriminação e violência que permeiam a escola, como um espaço de sociabilidade, e não, como querem fazer acreditar, o de inculcar nos escolares a "ideologia de gênero". A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em 2017, que deverá orientar a reformulação de todos os currículos escolares no Brasil, sequer menciona em seu conteúdo a ideologia de gênero. Por fim, em sua missão de firmar valores com respeito à diversidade e socializar o conhecimento técnico-científico, o professor tem um planejamento a cumprir, diariamente, inclusive à disposição de pais e demais interessados em acompanhar o trabalho competente que desenvolve em sala de aula. Essa celeuma criada por quem precisa de holofotes, talvez possa nos ajudar a pensar que, se estivéssemos mais presentes na vida escolar de nossos filhos, saberíamos que "caçar bruxas" dentro das escolas é, no mínimo, um contrassenso.

JEANI DELGADO MOURA é pós-doutora em Estudos sobre Educação e Riscos/Unicamp e docente do Departamento de Geociências da UEL

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