Hélio Doyle
É engraçada a polêmica que se criou porque o Itamaraty resolveu chamar de Cimeira a reunião de cúpula dos países da União Européia, da América Latina e do Caribe. Alguns colunistas, aproveitando para mostrar que são espirituosos, têm feito piadas e ironias a respeito. Jornalistas considerados bem-informados ‘‘revelam’’, para demonstrar o erro do Itamaraty, que o presidente Fernando Henrique Cardoso não gostou nada dessa inovação dos diplomatas brasileiros. E até já surgiram variadas versões para explicar por que o termo brasileiro cúpula foi substituído pelo português cimeira.
Não se viu a mesma indignação quando a palavra shopping foi incorporada ao nosso vocabulário, substituindo o velho centro comercial. Ou quando, nos jornais, rádios e televisões, começaram a ridiculamente falar em um tal de beach soccer, que é o nosso conhecido futebol de areia, ou de praia (agora a moda é playoff). Lojas, restaurantes e edifícios com nomes estrangeiros são a regra, e poucos estranham. Em Brasília, ao lado do Arby’s, na Asa Norte, há uma Blockbuster, um Bank Boston e uma lavanderia com nome em inglês. E o Setor Comercial Norte?
Mas pegaram no pé da cimeira. E pode ser mesmo que o presidente Fernando Henrique seja um dos indignados - em artigo que ele escreveu para um jornal de Brasília, em nenhum momento usou a palavra cimeira, prefere ‘‘Reunião do Rio’’. Tudo isso porque cimeira é uma palavra portuguesa, e o português é uma língua cada vez mais desprezada e fora de moda no Brasil. E quem também usa cimeira, imaginem, são países africanos como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau... com os quais alguns críticos devem achar absurdo o Brasil se misturar.
Essa não é, claro, a principal questão da cimeira - ou da reunião de cúpula, para os puristas da língua brasileira, ou da summit, para a turma que prefere o inglês. Há, obviamente, temas importantes nessa inédita reunião de 33 países latino-americanos e caribenhos com os 15 membros da União Européia (UE). Mas o ‘‘pragmatismo’’ de alguns tenta reduzir a importância do encontro às condições em que se darão as negociações para o estabelecimento de uma área de livre comércio entre os europeus, de um lado, e o Mercosul mais o Chile, de outro.
Claro que essas negociações são importantíssimas para o Brasil e demais países envolvidos, mas não são tudo. Para começar, a UE tem interesses também em outros grupos regionais, como o Grupo Andino e a Comunidade e Mercado Comum do Caribe (Caricom), e no México. Em segundo lugar, a cimeira não foi marcada para discutir apenas assuntos econômicos - embora sejam os principais. Há, na pauta, temas políticos, culturais e educativos.
E é pragmatismo demais, para não dizer falta de visão política, achar que um encontro de chefes de Estado e de governo só dá resultados se dele saírem bons negócios. É sempre bom que isso aconteça, mas não é tudo. E nem é o principal em reuniões desse nível. O mais importante é o fato político, o diálogo que se estabelece em diversos níveis, a definição de metas comuns. Essa reunião é importante o bastante apenas por estar se realizando.
É bobagem questionar a cimeira por causa do nome ou porque as negociações entre a UE e o Mercosul só começarão em 2001 e prometem ser difíceis. É não entender, em dose dupla, o que é uma cimeira.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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