Sobre a beleza na liturgia
“A autêntica beleza litúrgica não é exibicionismo estético, mas forma humilde e nobre (...)”
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
“A autêntica beleza litúrgica não é exibicionismo estético, mas forma humilde e nobre (...)”
Caio Matheus Caldeira da Silva 
zÉ sintomático que, em muitos ambientes eclesiais, a liturgia tenha sido reduzida a plataforma de discursos sociopolíticos, enquanto se torna secundária a mediação da Beleza como via de acesso ao Mistério. Esquece-se que, na tradição teológica – de Dionísio Areopagita a Hans Urs von Balthasar – forma, símbolo e esplendor não são enfeites opcionais, mas modos pelos quais a verdade se manifesta. Como recorda Balthasar, sem a dimensão da beleza a verdade deixa de “brilhar” e, com isso, o bem perde parte de sua força de atração.
Quando essa perspectiva é abandonada, o sagrado reduz-se à pura funcionalidade: o templo se converte em sala multiuso, o rito cede à lógica do “prático” e do “barato”, e os sinais sacramentais são tratados como meros suportes materiais. No fundo, aparece uma crise de metafísica: já não se percebe que a realidade sacramental participa do ser divino e remete para além do imediatamente útil. Sem metafísica, a liturgia murcha; sem a consciência de que ali resplende algo do próprio ser de Deus, o culto tende a tornar-se simples gestão de espaços e horários.
É nesse contexto que o termo “galpão” ganha força simbólica. Não se trata apenas de crítica estética, mas do sintoma de certa “protestantização” das igrejas católicas: espaços que se aproximam mais de salões de eventos ou salas de show do que de templos, onde se recusa progressivamente a linguagem dos sinais litúrgicos como via de comunicação do Mistério. A arquitetura neutra, a eliminação de imagens e a pobreza simbólica do espaço celebrativo revelam desconfiança diante da sensibilidade e da imaginação, quase como se Deus devesse falar apenas pela palavra discursiva, e não também pela beleza visível.
O contraste com a Idade Média é eloquente: ali, a arte sacra funcionava como catequese dos simples, dos pobres e dos analfabetos. Catedrais, vitrais, afrescos e ícones constituíam uma Bíblia dos pobres, tornando palpável a narrativa da Salvação para aqueles que não tinham acesso aos livros. A Igreja sempre soube que os olhos também aprendem e que o coração é educado por aquilo que contempla.
Nesta perspectiva, é decisivo frisar que o belo não se confunde com ostentação nem com pompa vazia. A autêntica beleza litúrgica não é exibicionismo estético, mas forma humilde e nobre pela qual o Mistério se deixa entrever. Longe de ser luxo supérfluo, o belo é dimensão vital da transmissão da fé: é por sinais harmoniosos, proporcionados e cheios de significado que o povo de Deus é introduzido, sensivelmente, na profundidade do invisível. São Tomás de Aquino definiu a beleza como splendor formae, esplendor da forma – o brilho pelo qual a verdade e a bondade do ser se tornam amáveis e inteligíveis.
Esse empobrecimento atual não é casual. Ele se alimenta de desconfiança protestante herdada da Reforma de Martinho Lutero, que, ao reagir a abusos medievais, minimizou o lugar das mediações sensíveis na comunicação do divino. Ainda que compreensível em seu contexto histórico, tal postura não expressa a plenitude da teologia católica, que sempre viu na via pulchritudinis um caminho legítimo para Deus. Também o magistério recente retoma essa intuição: Bento XVI insistia que “a fé não cresce por proselitismo, mas por atração”; na liturgia, essa atração passa pelo esplendor do sinal, pela harmonia entre rito, espaço, música e silêncio.
Recuperar a Beleza na liturgia, portanto, não é capricho estético nem privilégio de comunidades abastadas. Trata-se de exigência interna da própria fé, que não se comunica apenas por conceitos, mas por esplendor, por sinais que deixam transparecer, ainda que de modo humilde, algo da glória do Deus vivo. Onde a beleza litúrgica é levada a sério, o templo deixa de parecer galpão e volta a ser aquilo que é chamado a ser: porta aberta para o Mistério.
Prof. Dr. Diác. Caio Matheus Caldeira da Silva - Doutor em Teologia – PUCPR – Pesquisador CAPES


