É estarrecedora a revelação, publicada nos jornais, de que sobra dinheiro público para obras e empreendimentos, mas faltam os projetos de execução. Então, além da sanha arrecadadora, de os governos terem os cofres abarrotados alimentando a farra governamental e a corrupção de toda a ordem, revela-se a falta de capacidade gerencial dos administradores públicos, ineptos para realizar mesmo dispondo de recursos. A revelação é de estudiosos de problemas estratégicos do Brasil, mostrando que a baixa existência de projetos, de vontade e de capacidade dos que ocupam funções públicas com poder de decisão é um problema maior do que uma eventual falta de dinheiro.
É como morrer de sede à beira do rio ou padecer de fome com os paióis abarrotados. Não se pode dizer que isto ocorre apenas no atual Governo, mas foi assim em todos eles, com maior ou menor intensidade. Isto vale para todas as instâncias governamentais, incluindo as prefeituras, que mal sabem elaborar os denominados projetos de viabilidade e assim perdem verbas que lhes são destinadas e estão disponíveis, mas que caducam se não forem buscadas. Por essa negligência e incompetência gerencial os prazos se findam e o dinheiro se mantém na origem, sem uso. As oportunidades de obras e negócios estão presentes em todo o País - revelam esses estudiosos -, mas não há um desenho detalhado dos empreendimentos para que os recursos públicos sejam liberados e aplicados.
O estudo ora feito mostra que só nas áreas de transporte rodoviário, da produção de energia elétrica e de saneamento básico, o déficit de projetos - indispensáveis para a edificação de qualquer coisa - representam R$ 65 bilhões em investimentos não realizados. Apenas nesses setores isto representa 14.550 megawatts não gerados, 38 mil quilômetros de estradas não construídas ou não restauradas, e obras de saneamento que atenuariam o problema de 35 milhões de brasileiros sem água corrente e 95 milhões sem esgotos. O mal dos governos não reside, portanto, apenas na corrupção, mas também na incompetência. Isto se traduz, também, por ausência de formação adequada, que deveria ser exigida para bem administrar a coisa pública, porque dos candidatos a cargos eletivos nada se exige, podendo qualquer borrabotas ascender ao poder e mandar e desmandar.
O próprio presidente Lula (cujo governo incorre no mesmo) mal chegou a intimar governos estaduais e prefeituras a apresentarem seus projetos e assim fazerem uso das verbas respectivas que lhes cabem, destacadamente nos setores da moradia e do saneamento. Mas esses governos custam a realizar obras mesmo tendo dinheiro próprio. Preferem gastá-lo na farra pública. Porque gastar assim não exige diploma. O Governo Lula disponibiliza, até o final do mandato, de R$ 503 bilhões para obras de infra-estrutura, mas teme que a ausência de projetos (de seu próprio governo e nos demais) impeça a execução plena desse objetivo. Num país onde quase tudo está ainda por fazer - e havendo dinheiro - é desalentador constatar barbaridade como esta.

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