Soberania e idéias perdidas - Rubem Azevedo Lima
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sexta-feira, 27 de novembro de 1998
Rubem Azevedo Lima 
Um daqueles discursos que Fernando Henrique Cardoso pronunciou no Senado - e deve estar entre os que ele mesmo pediu para esquecerem - guarda, hoje, nos arquivos fonográficos do Congresso, o tom candente das críticas que o então senador da oposição fazia ao governo da época. Nele, FHC fala da dívida externa do Brasil, do desemprego, da política de salários, dos juros altos e outras questões.
Mas as cifras relativas à extensão dos problemas analisados por FHC parecem, agora, inexpressivas. Sobre o desemprego, por exemplo, ele afirmou, com espanto sublinhado pela taquigrafia num sinal de exclamação: Só em São Paulo existem 700 mil desempregados!. Na verdade, os números oficiais, talvez subestimados, falavam em 380 mil trabalhadores sem emprego. Hoje, só na região da capital paulista, após quatro anos do atual governo, os sem-trabalho passam de 1,4 milhão de pessoas.
Outros números, citados ou inferidos do pronunciamento do ex-senador são ainda menos chocantes, se comparados com os desse final de 1998. A dívida externa do País era, na ocasião, de US$ 76 bilhões. Hoje passa de US$ 200 bilhões, dos quais cerca de US$ 50 bilhões à conta do atual governo. Chocante, no período, foi a privatização de estatais por US$ 71 bilhões (segundo o ministro Paulo Paiva), sem resolver nenhum problema do País.
Os juros reais então praticados estavam entre 12,69% e 16% ao ano, acima da inflação, valor julgado extorsivo pelo senador. Agora, após dois meses na faixa de 49,75% (três vezes maior do que a suposta extorsão), estão em 42,25% - 164% a mais do que a cifra que espantava FHC - e multiplicaram por seis nossa dívida interna!
FHC condenava a política salarial vigente, acusando o governo de pagar tributo à falsidade de uma visão do mundo que acredita, primeiro, em poupar nos salários, para ter lucratividade; e, segundo, que o crescimento dos salários é fonte de inflação, mesmo quando se vê, a olho nu, que, no caso brasileiro, quem dispara a espiral inflacionária são os juros altos e os incríveis déficits públicos.
O senador estranhava também que nossas autoridades fazendárias se aferrassem a certa ficções. A maior de todas - frisava - é a de que, para sairmos do buraco, devemos levar a economia a uma recessão sem precedentes. Diz-se que o FMI é responsável por tudo isso. Mas será? Ou terá faltado aos negociadores firmeza, realismo e até mesmo credibilidade, para, ao reconhecerem as dificuldades e ao manterem abertos os canais de negociação pela recusa à moratória, como princípio, afirmarem, ao mesmo tempo, que esta terra tem dono, que o dono não há de ser o capital financeiro, daqui ou de fora, e com a fome e o desespero do povo não se constrói caminho algum, que leve a um futuro de responsabilidade compartilhada.
Responsabilidade compartilhada! Faltou exatamente isso nas recentes negociações do Brasil com o FMI, que deviam ser compartilhadas com o Senado, como a Constituição exige, segundo o senador Josaphat Marinho. Sem tal formalidade, além da cessão de receitas da Petrobras aos credores externos, o País - em troca do empréstimo de US$ 41,5 bilhões - abdicou à sua soberania. Será esse o preço a pagar pelo fim da inflação? Pois na essência e nas palavras esquecidas de seu primeiro discurso no Senado, em 1983, a soberania nacional era o fulcro do ideário político de FHC.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


